O absurdo: chamada aberta para a edição de janeiro de 2027 da Proust Magazine

A Proust Editora abre as inscrições para a edição temática de janeiro de 2027 da Proust Magazine, dedicada a O absurdo. Receberemos contos, poemas e memórias em língua portuguesa até 20 de novembro de 2026, às 23h59, horário de Brasília.

Há momentos em que a realidade parece perder a lógica. Em outros, talvez apenas revele uma lógica estranha que sempre esteve ali. O absurdo pode surgir no confronto entre a busca humana por sentido e um mundo que não responde; numa burocracia que se transforma em labirinto; num gesto cotidiano levado às últimas consequências; no humor, no desconcerto, no fantástico ou na própria forma da linguagem.

O texto não precisa empregar a palavra “absurdo”, explicar o tema nem seguir uma tradição estética específica. Interessa-nos a maneira singular como cada obra produz uma fissura no esperado e transforma essa experiência em literatura.

Uma chamada pública e gratuita

O tema foi escolhido por votação entre integrantes do Salão Literário da Proust Magazine, mas a chamada é pública. Não é necessário integrar o Salão, ter obra publicada ou possuir experiência editorial anterior.

Podem participar autoras e autores que escrevam em língua portuguesa, independentemente de nacionalidade ou país de residência. A submissão, a seleção e a publicação são gratuitas.

Serão aceitos:

  • contos;
  • poemas individuais ou pequenos conjuntos poéticos;
  • memórias e textos autobiográficos com elaboração literária.

Cada participante poderá enviar até dois textos, em inscrições separadas. O limite é de quatro páginas por submissão.

Os trabalhos escolhidos formarão a Proust Magazine — Vol. 2 No. 1 (jan/2027), com lançamento previsto para 1º de janeiro de 2027. A edição digital será disponibilizada gratuitamente e poderá haver edição impressa sob demanda, cuja aquisição será opcional.

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O Edital Permanente continua aberto

Além da chamada temática de janeiro, o Edital Permanente da Proust Magazine continua recebendo textos para as edições de novembro e dezembro de 2026 e de fevereiro de 2027 em diante.

Conheça o Edital Permanente

As duas chamadas são independentes e utilizam formulários separados. Textos não selecionados para a edição temática não são transferidos automaticamente para o fluxo permanente.

Até 20 de setembro: envie seu texto para a edição de outubro da Proust Magazine

Uma revista começa muito antes de suas páginas serem diagramadas.

Começa quando um texto chega. Depois, outro. Vozes que foram escritas em tempos e lugares diferentes passam a dividir um mesmo espaço editorial e, pouco a pouco, uma nova edição encontra sua forma.

A edição de outubro da Proust Magazine já está em preparação. Autoras e autores que desejem ter seus trabalhos considerados para esse número poderão enviar suas submissões até 20 de setembro de 2026.

O prazo não encerra o Edital Permanente. Os textos recebidos depois dessa data continuarão normalmente em nosso fluxo de leitura e serão considerados para a edição de novembro.

O que a Proust Magazine recebe

O edital contempla contos, poemas e memórias em língua portuguesa. Buscamos trabalhos com voz própria, consistência de linguagem e capacidade de criar uma experiência verdadeira de leitura — textos que possam nascer de uma lembrança, de uma inquietação, de uma invenção ou de uma forma particular de observar o mundo.

Não é necessário ter experiência anterior de publicação. O que importa é que o texto esteja concluído, revisado e pronto para ser lido.

O que acontece quando um texto é selecionado

Na Proust, a seleção não é o fim do trabalho editorial. É o início.

Os textos escolhidos passam por um processo de leitura, revisão e padronização, sempre com cuidado para preservar a voz e a intenção de quem escreveu. Em seguida, entram no projeto gráfico da edição, recebem contexto dentro do conjunto e passam a circular numa revista digital de acesso gratuito.

A publicação não tem custo para o autor. Os direitos autorais permanecem integralmente com quem escreveu, e a autorização concedida à revista é não exclusiva. Cada número também pode contar com uma versão impressa sob demanda, cuja aquisição é inteiramente opcional.

Esse percurso importa porque publicar não é apenas fazer um texto aparecer. É criar as condições para que ele seja lido com atenção, encontre outros textos e permaneça disponível para novos leitores.

Como participar

Antes do envio, consulte o Edital Permanente. Nele estão as orientações completas sobre gêneros, extensão, formatação, direitos autorais e processo de seleção.

Cada submissão deve ser feita exclusivamente pelo formulário oficial. A seleção é contínua e a submissão não implica publicação.

Para a edição de outubro: envie até 20 de setembro de 2026.

Depois de 20 de setembro: o texto seguirá para consideração na edição de novembro.

Leia o Edital Permanente:
https://proustmagazine.org/2026/06/10/sua-voz-nosso-legado-edital-permanente-para-a-proust-magazine/

Envie seu texto:
https://forms.gle/drce96CUb4aUA2fy9

Talvez exista uma página ainda guardada, esperando o momento de caminhar sozinha. Talvez este seja o momento de deixá-la encontrar seus leitores.

Dr. Farlley Derze passa a integrar o Conselho Editorial da Proust

Como Curador de Estudos Literários, o pesquisador, pianista, poeta e escritor contribuirá para novas frentes editoriais dedicadas ao pensamento e à criação literária.

Uma casa editorial se constrói também pelas pessoas que escolhe reunir em torno de seu projeto. É com alegria que a Proust anuncia a chegada do Dr. Farlley Derze ao seu Conselho Editorial, na função de Curador de Estudos Literários.

Com uma trajetória marcada pelo diálogo entre pensamento e criação, Farlley é pós-doutor em Estética, Semiótica e Hermenêutica, pianista premiado em Dubai, membro da Academia de Letras e Música do Brasil e autor de dezenas de livros. Sua obra se move entre a música e a palavra, aproximando reflexão, sensibilidade e atenção às sutilezas da experiência humana.

Essa combinação será uma contribuição importante para o Conselho Editorial. Sua bagagem teórica acrescenta densidade à leitura e à discussão das obras; sua experiência prática como poeta, escritor e músico mantém esse trabalho próximo da realidade da criação — de suas escolhas, exigências e possibilidades.

Como Curador de Estudos Literários, Farlley estará à frente de novos projetos da Proust e participará de sua concepção e de seu desenvolvimento editorial. As iniciativas irão ampliar o espaço dedicado aos estudos, à crítica e à criação literária, sempre em diálogo com os princípios que orientam a casa: rigor, liberdade intelectual, cuidado editorial e compromisso com obras capazes de permanecer.

Sem antecipar formatos que ainda estão sendo construídos, podemos dizer que se trata de um novo capítulo para a Proust. Ao longo das próximas semanas, teremos o prazer de apresentar esses projetos e compartilhar os caminhos que começam a se abrir.

Receber o Dr. Farlley Derze no Conselho Editorial é fortalecer a capacidade da Proust de unir repertório e invenção, pensamento e prática, leitura e criação. Seja muito bem-vindo.

O navio brasileiro que surpreendeu Nova Orleans

“Como? Pois no Brasil também se fabricam navios de guerra?” A pergunta, registrada por Adolfo Caminha em No País dos Ianques, aparece durante a passagem do Almirante Barroso por Nova Orleans. O cruzador impressionava os visitantes. A notícia de que havia sido construído no Brasil parecia impressioná-los ainda mais.

A cena faz parte de uma visita marcada por recepções, discursos e curiosidade pública. Ao contá-la, Caminha reúne a satisfação de ver o Brasil homenageado e a irritação diante de uma dúvida que os visitantes não conseguiam esconder.

Almirante Barroso, fotografado por Marc Ferrez em 1888, na Baía de Guanabara, Rio de Janeiro. Acervo Instituto Moreira Salles. Domínio público. Recorte de um registro feito em outro momento da trajetória do navio.

Um dia brasileiro na exposição

No encerramento da Exposição das Três Américas, os oficiais do Barroso deveriam comparecer em grande uniforme. Um trem especial os levou ao palácio da exposição, enfeitado com bandeirolas de várias nações. Caminha descreve a manhã chuvosa, o nevoeiro e a música que acompanhava a partida.

Nos convites para a festividade, conta o escritor, lia-se “Brasilian day”. A expressão aparece assim, com s, nesse trecho da edição de 1894 e no texto da Proust.

“Foi um dia essencialmente brasileiro esse.”

Detalhe da página 71 de No Paiz dos Yankees, edição de 1894. O fac-símile preserva a grafia original. Internet Archive / Wikimedia Commons. Domínio público.

A entrada dos brasileiros no salão foi recebida com palmas e vivas ao país. Vieram os discursos, as saudações à armada brasileira e as palavras em favor de uma união entre as nações americanas. Caminha guardaria a lembrança da hospitalidade e das gentilezas daquela festa.

O pavilhão que deixava a desejar

Quando a cerimônia terminou, os visitantes puderam percorrer os pavilhões. Foi aí que a satisfação do escritor encontrou um motivo de desconforto: a representação brasileira lhe pareceu insignificante diante dos recursos do país.

Entre os produtos expostos, ele enumera madeiras, café em grão, fumo e artigos de borracha. Sua crítica se dirige à seleção e à apresentação do que o Brasil levara ao certame. Caminha considera que o país tinha muito mais a mostrar.

“Brilharíamos pela ausência, se o Governo não tivesse a lembrança de mandar o Almirante Barroso.”

O navio, ancorado no Mississipi, parecia oferecer aos visitantes uma imagem que o pavilhão não conseguira apresentar. Ainda assim, havia quem duvidasse que aquele cruzador fosse obra brasileira. É nesse ponto que Caminha registra a pergunta sobre a fabricação de navios de guerra no Brasil.

Uma exposição que se prolongava a bordo

No capítulo seguinte, a curiosidade toma conta do navio. Os visitantes perguntam pelos canhões e pelo funcionamento das máquinas. Os oficiais explicam que o Barroso é de construção nacional. Segundo o narrador, a surpresa aumenta:

“It is impossible!…”

“É impossível!”, em tradução. A exclamação em inglês dá voz à incredulidade que Caminha descreve. Enquanto isso, as lanchas iam e vinham entre o cais e o cruzador, cheias de passageiros.

Detalhe da página 84 de No Paiz dos Yankees, edição de 1894, com a construção nacional e a reação dos visitantes. Internet Archive / Wikimedia Commons. Domínio público.

Da câmara do comandante ao alojamento dos marinheiros, do tombadilho ao porão, o Barroso foi aberto à visitação. A exposição parecia ter se prolongado até o navio, e os oficiais passavam horas conduzindo famílias, descrevendo aparelhos e respondendo a perguntas.

A construção brasileira também está documentada na ficha histórica do cruzador preservada pela Marinha: sua quilha foi batida no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro em 1880, e o lançamento ao mar ocorreu em 1882.

O que Caminha guarda dessa visita

O episódio reúne sentimentos que o escritor deixa conviver: a alegria da recepção, o orgulho pelo navio, a impaciência com a dúvida dos visitantes e a crítica à representação brasileira na exposição. Essa combinação dá movimento ao relato e faz uma pergunta ouvida junto ao cruzador permanecer na memória do leitor.

Este é o terceiro episódio da nossa série sobre No País dos Ianques. Nos anteriores, visitamos o hotel sobre trilhos e o elefante de Coney Island e conhecemos o carneiro do Barroso que foi parar no New York Herald.

A nova edição da Proust

No País dos Ianques, de Adolfo Caminha, abre a coleção Vozes do Passado, da Proust Editora. A nova edição atualiza a ortografia e preserva o vocabulário, a sintaxe e o estilo do autor.

Pré-venda por R$ 69 + frete, até 4 de outubro de 2026.

Conheça a edição e garanta seu exemplar

Créditos e fontes

Fonte do relato: Adolfo Caminha, No Paiz dos Yankees, Rio de Janeiro: D. de Magalhães, 1894, capítulos VII e VIII, especialmente pp. 71–78 e 83–85. Edição digitalizada em domínio público. As citações destacadas foram conferidas com o texto da edição Proust; os fac-símiles mantêm a grafia de 1894.

Fotografia: Marc Ferrez, Cruzador Almirante-Barroso, 1888. Acervo Instituto Moreira Salles, coleção Gilberto Ferrez. Registro da imagem e indicação de domínio público.

Informação sobre a construção do navio: Almirante Barroso, cruzador de 1882–1893, Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha.

O carneiro do Barroso que foi parar no New York Herald

Quando o cruzador Barroso chegou a Nova York, um repórter do New York Herald esteve entre os primeiros a subir a bordo. Segundo Adolfo Caminha, a descrição publicada no dia seguinte era tão minuciosa que incluía até um carneiro de estimação levado pela tripulação.

O episódio ocupa poucas linhas de No País dos Ianques, publicado em 1894. É uma pequena cena em que se encontram a curiosidade do jornalista, a vida cotidiana de um navio e o humor de um escritor brasileiro diante do que observa.

Cruzador Almirante Barroso, fotografado por Marc Ferrez em 1888, na Baía de Guanabara, Rio de Janeiro. Acervo Instituto Moreira Salles. Domínio público. Recorte da fotografia, que registra outro momento da trajetória do navio.

Uma visita de cartola e sobrecasaca

O Barroso havia fundeado em frente à Battery Square e começava a receber as visitas oficiais do cônsul brasileiro e de outras autoridades. Entre os primeiros visitantes, Caminha faz questão de destacar o repórter do New York Herald.

Seu retrato é preciso: cartola, sobrecasaca de pano, bigode louro, olhos azuis. O visitante aparece como um homem amável e expansivo. Antes de contar o que o jornalista escreveu, Caminha registra sua presença a bordo e dá um rosto ao encontro.

O carneiro entra na notícia

Segundo o relato, a reportagem do dia seguinte descrevia o cruzador com “uma precisão fotográfica”. E o olhar do repórter alcançava um passageiro improvável:

“sem esquecer mesmo um carneiro de estima que trazíamos”

Caminha conta que o jornalista incluía o animal na lotação do navio e ainda lhe emprestava “qualidades invejáveis”. Na descrição do cruzador brasileiro, o carneiro também conquistava seu lugar.

É então que o narrador encerra o episódio com uma ironia:

“Creio até que o pobre lanígero figurou na folha yankee entre os heróis de Humaitá!”

Detalhe da página 132 de No Paiz dos Yankees, edição de 1894. Digitalização disponibilizada pelo Internet Archive e Wikimedia Commons. Domínio público. O fac-símile preserva a grafia original.

Entre o carneiro e os heróis

“Lanígero” é o animal que tem lã: aqui, o carneiro. O vocábulo solene participa da graça da frase, que aproxima o pequeno companheiro de viagem de uma memória militar.

Humaitá remete à Guerra do Paraguai e, na história naval brasileira, à passagem realizada em 1868. Ao imaginar o carneiro entre aqueles heróis, Caminha leva a descrição jornalística ao exagero cômico.

O “Creio até” é decisivo para a leitura: trata-se da brincadeira do narrador. A frase que chega até nós é a de Caminha, que reconta a visita do repórter e comenta a cobertura do jornal.

O humor de Caminha em No País dos Ianques

Em poucos parágrafos, o escritor passa das formalidades da chegada ao traje do visitante, da descrição do navio ao seu animal de estimação. Esse movimento dá vida ao relato: cada detalhe pode abrir uma história dentro da viagem.

Encerradas as visitas oficiais, Caminha se prepara para conhecer a cidade. A breve passagem do carneiro permanece como um exemplo de sua atenção ao imprevisto e de sua maneira de fazer o leitor sorrir durante a travessia.

Este é o segundo episódio da nossa série sobre No País dos Ianques. No primeiro, visitamos o hotel sobre trilhos e o edifício em forma de elefante de Coney Island, outras cenas que surpreenderam o escritor.

A nova edição da Proust

No País dos Ianques abre a coleção Vozes do Passado, da Proust Editora. A nova edição atualiza a ortografia e preserva o vocabulário, a sintaxe e o estilo de Adolfo Caminha.

A pré-venda está disponível por R$ 69 + frete, até 4 de outubro de 2026.

Conheça a edição e garanta seu exemplar.

Créditos e fontes

Fotografia: Marc Ferrez, Cruzador Almirante Barroso, 1888. Acervo Instituto Moreira Salles, coleção Gilberto Ferrez. Registro da imagem e indicação de domínio público.

Fonte do relato: Adolfo Caminha, No Paiz dos Yankees, Rio de Janeiro: D. de Magalhães, 1894, pp. 131–132. Edição digitalizada em domínio público. As citações em destaque seguem a ortografia da edição Proust.

Contexto histórico: Boletim da Divisão Avançada comunicando a Passagem de Humaitá, de 19 de fevereiro de 1868, Arquivo da Marinha, reproduzido na revista Navigator, n. 27.

O hotel sobre trilhos e o elefante de Coney Island que surpreenderam Adolfo Caminha

Descrição: Em No País dos Ianques, Adolfo Caminha registra uma Coney Island de hotéis móveis, edifícios extravagantes, música e multidões.

No fim do século XIX, Coney Island já era um dos grandes centros de diversão dos Estados Unidos. Hotéis, cervejarias, brinquedos, música, piqueniques e multidões compunham uma paisagem que parecia desafiar os limites do possível.

Foi nesse cenário que o escritor brasileiro Adolfo Caminha encontrou duas construções especialmente surpreendentes: um hotel de madeira instalado sobre uma plataforma móvel e um edifício inteiro em forma de elefante.

Um hotel que podia mudar de lugar

Entre os edifícios observados em Coney Island, Caminha descreve um hotel de madeira construído sobre uma plataforma móvel. O prédio podia ser deslocado sobre trilhos — uma solução tão extraordinária quanto prática diante das mudanças da faixa de areia.

A descrição encontra um paralelo histórico impressionante. Em 1888, o Brighton Beach Hotel foi afastado da linha da praia e transportado inteiro sobre trilhos, numa das operações de engenharia mais célebres da história de Coney Island.

Isso não significa que seja necessariamente o mesmo hotel visto por Caminha. A fotografia histórica, porém, ajuda a compreender o tipo de solução arquitetônica que existia naquele lugar e naquele período.

Um edifício em forma de elefante

O hotel móvel não foi a única construção extraordinária registrada pelo escritor.

Caminha também conheceu o Elephantine Colossus, chamado ainda de Elephant Bazaar: um enorme edifício em forma de elefante que funcionava como atração, espaço de observação e complexo de entretenimento.

Segundo Caminha, a construção possuía 31 compartimentos, 63 janelas e iluminação elétrica.

The Colossal Elephant of Coney Island, publicado na Scientific American em 1885. Imagem da NYPL; arquivo digital via Rawpixel/Wikimedia Commons, licença CC BY 2.0.

Uma ilustração publicada pela Scientific American em 1885 mostra a estrutura por fora e em cortes internos, revelando escadas e compartimentos distribuídos pelo corpo do elefante. Preservada pela New York Public Library, ela ajuda a visualizar a escala do edifício descrito por Caminha.

A construção fazia parte de uma Coney Island em que arquitetura, espetáculo e publicidade se misturavam. O próprio edifício era uma atração.

Coney Island como parque de espanto

A força do relato de Caminha não está apenas nas construções extraordinárias. Está também no modo como ele observa a vida ao redor.

Na Coney Island descrita em No País dos Ianques, música, cervejarias, piqueniques, brinquedos e multidões formam uma experiência coletiva intensa. Tudo parece feito para atrair, divertir e surpreender.

Uma estereografia publicada por Underwood & Underwood em 1889 mostra banhistas no mar em Manhattan Beach, parte de Coney Island. Preservada pela New York Public Library, ela oferece um fragmento visual do mesmo universo recreativo registrado no livro.

Underwood & Underwood, In the Surf, Manhattan Beach, U.S.A., 1889. NYPL Digital Collections, Robert N. Dennis Collection. Domínio público nos Estados Unidos.

Coney Island torna-se, no relato do escritor, um verdadeiro parque de espanto: um lugar em que a modernidade se apresenta como espetáculo.

Uma das muitas cenas de No País dos Ianques

O episódio de Coney Island é apenas uma das cenas reunidas em No País dos Ianques.

Ao longo do livro, Adolfo Caminha observa cidades, costumes, tecnologias e contradições dos Estados Unidos do fim do século XIX. Seu olhar combina curiosidade, surpresa e crítica — oferecendo ao leitor brasileiro um testemunho singular daquele período.

A nova edição da Proust Editora está em pré-venda por R$ 69 + frete, até 4 de outubro.

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Créditos das imagens

A 3ª edição da Proust Magazine chega em 1º de setembro

Há alguns meses, a Proust Magazine começou a construir um espaço para literatura, memória e reflexão — não apenas para publicar textos, mas para fazê-los circular, encontrar leitores e permanecer.

No dia 1º de setembro, esse percurso ganha mais um capítulo.

Chega a 3ª edição da Proust Magazine, reunindo novas vozes, diferentes formas de escrita e textos que nos convidam, cada um à sua maneira, a permanecer um pouco mais na leitura.

Nos próximos dias, vamos apresentar alguns dos autores, textos e ideias que fazem parte desta edição.

Por enquanto, fica o convite:

1º de setembro. A 3ª edição da Proust Magazine.

Por que reler No País dos Ianques em 2026?

Um brasileiro olha para os Estados Unidos no fim do século XIX. Mais de um século depois, o que esse olhar ainda pode nos dizer?

Em 1894, Adolfo Caminha publicou No País dos Ianques, relato nascido de uma viagem aos Estados Unidos realizada poucos anos antes. Caminha não pretendia escrever uma história do país nem oferecer uma análise definitiva da sociedade norte-americana. Queria registrar aquilo que havia visto — e, sobretudo, a impressão que aquele mundo em transformação produzira sobre ele.

É justamente isso que torna o livro tão interessante 132 anos depois.

Ler No País dos Ianques hoje não significa procurar nele respostas prontas sobre os Estados Unidos contemporâneos. Significa observar como um brasileiro do século XIX reagiu ao encontro com uma sociedade que lhe parecia representar o futuro.

E perceber, nessa distância, perguntas que continuam reconhecíveis.

1. Porque vemos os Estados Unidos através de um olhar brasileiro

Há muitos livros sobre os Estados Unidos. O que torna No País dos Ianques particular é o lugar de onde seu autor observa.

Caminha não olha para o país como alguém que lhe pertence. Ele chega de fora. Compara, estranha, admira, questiona. Aquilo que para um habitante local poderia parecer cotidiano transforma-se, diante de seus olhos, em objeto de atenção.

Essa diferença de perspectiva importa.

Ao descrever cidades, costumes, ritmos de trabalho, tecnologia e formas de convivência, Caminha também revela — mesmo quando não pretende fazê-lo — algo sobre o Brasil de onde partiu.

Toda viagem produz esse efeito: olhamos para o outro e, quase inevitavelmente, passamos a enxergar melhor a nós mesmos.

2. Porque o livro registra o impacto da modernidade enquanto ela acontecia

Há momentos em que Caminha parece fascinado pelo mundo que encontra.

Máquinas, eletricidade, transportes, grandes cidades, rapidez, organização: os Estados Unidos aparecem diante dele como uma sociedade em aceleração. Ao observar Nova York do alto da Ponte do Brooklyn, por exemplo, o escritor associa diretamente aquela paisagem ao progresso tecnológico e à velocidade da vida norte-americana.

Hoje conhecemos o que veio depois.

Sabemos até onde chegaram a eletrificação, o automóvel, a aviação, a comunicação instantânea, a computação e as redes digitais.

Caminha não sabia.

E é justamente por isso que seu olhar tem valor: encontramos alguém observando o começo de transformações que, para nós, já fazem parte da história.

É como assistir ao futuro antes que ele soubesse que era futuro.

3. Porque admiração e estranhamento aparecem lado a lado

No País dos Ianques não precisa ser lido como elogio nem como condenação dos Estados Unidos.

Sua riqueza está precisamente na tensão.

Caminha é capaz de se maravilhar com aquilo que encontra e, em outros momentos, registrar desconfortos, diferenças e contradições. Seu olhar é pessoal, datado e inevitavelmente marcado pelos valores de sua época.

Isso não diminui o interesse do livro. Ao contrário.

Um relato de viagem se torna especialmente revelador quando conseguimos ler duas coisas simultaneamente: o mundo observado e quem o observa.

Há, portanto, duas viagens acontecendo nestas páginas.

Uma atravessa os Estados Unidos.

A outra atravessa a mentalidade de um brasileiro do final do século XIX.

4. Porque algumas das perguntas ainda são nossas

O que significa ser moderno?

Quanto progresso tecnológico representa também progresso humano?

Por que determinadas sociedades passam a funcionar como modelos para outras?

O que acontece com uma identidade nacional quando ela se confronta com uma potência econômica e cultural?

Como admirar aquilo que outro país construiu sem simplesmente transformá-lo em ideal?

Caminha não formula necessariamente essas perguntas nos termos em que as formularíamos hoje. Mas elas emergem de sua experiência.

E talvez seja aí que um livro de 1894 deixe de ser apenas uma curiosidade histórica.

A tecnologia mudou. As cidades mudaram. Os Estados Unidos mudaram. O Brasil mudou.

Mas a relação entre progresso, poder, identidade, admiração e pertencimento continua longe de ser uma questão encerrada.

5. Porque reler o passado pode tornar o presente menos óbvio

Existe uma vantagem peculiar em ler documentos de outras épocas: eles retiram do presente a aparência de inevitabilidade.

Aquilo que hoje parece permanente um dia foi novidade.

Aquilo que hoje aceitamos como natural um dia provocou espanto.

Aquilo que uma geração enxergou como futuro pode, para outra, já pertencer ao passado.

No País dos Ianques nos oferece justamente esse deslocamento.

Durante algumas páginas, podemos olhar para os Estados Unidos sem o peso de tudo o que aconteceu depois de 1894. Podemos acompanhar o espanto de alguém diante de uma sociedade que ainda estava construindo boa parte da imagem que projetaria sobre o século seguinte.

E depois retornar a 2026 com uma pergunta diferente:

o que, no nosso próprio presente, parece tão natural que já deixamos de enxergar?

Uma obra do passado que volta a circular

É por essa razão que escolhemos No País dos Ianques para abrir a série Vozes do Passado, da Proust Editora.

Não para transformar o passado em objeto de nostalgia.

Mas para devolver à circulação obras capazes de criar uma conversa entre épocas.

Mais de um século separa o olhar de Adolfo Caminha do nosso. Essa distância não torna o livro irrelevante.

É justamente ela que torna a leitura possível de outra maneira.

132 anos depois, vale voltar ao país dos ianques — desta vez levando conosco tudo o que aconteceu desde então.

A nova edição de No País dos Ianques, de Adolfo Caminha, está em pré-venda pela Proust Editora.

Vozes do Passado: começa a pré-venda de No País dos Ianques, de Adolfo Caminha

Vozes do Passado: livros brasileiros que merecem voltar a circular

A Proust Editora abre nesta segunda-feira, 24 de agosto, a pré-venda inaugural da série Vozes do Passado, dedicada à recuperação de obras da literatura brasileira de relevância histórica ou literária que hoje se encontram pouco acessíveis ao leitor.

O primeiro volume é No País dos Ianques, de Adolfo Caminha, publicado originalmente em 1894. O livro reúne as impressões do escritor sobre uma viagem do Brasil aos Estados Unidos, com escalas no Nordeste e no Caribe, a bordo do cruzador Almirante Barroso.

Mais do que um relato de viagem, a obra permite acompanhar o olhar de um autor brasileiro do fim do século XIX diante das cidades, dos costumes e das transformações que encontrou pelo caminho. A nova edição atualiza a ortografia e preserva o vocabulário, a sintaxe e o estilo do autor.

Pré-venda inaugural

Durante a pré-venda, No País dos Ianques está disponível por R$ 69, mais frete. A condição especial permanece válida até 4 de outubro de 2026; a partir de 5 de outubro, o preço será de R$ 89.

A edição está em fase final de preparação. O formato previsto é 14 × 21 cm, em brochura com orelhas, com miolo em preto e branco sobre papel pólen natural 80 g/m². A postagem dos exemplares ocorrerá até 13 de novembro de 2026.

Os três primeiros volumes

Desde o início, a série será apresentada como um projeto editorial em três ondas. Depois de No País dos Ianques, virão Se eu fosse Sherlock Holmes, de Medeiros e Albuquerque, e Poesias oferecidas às senhoras rio-grandenses, de Delfina Benigna da Cunha.

Cada título terá seu próprio momento de destaque, permitindo acompanhar de perto a preparação das edições e a redescoberta de autores, obras e contextos que merecem voltar à circulação.

Quando uma obra volta a circular: o trabalho editorial de reencontrar o passado

Alguns livros desaparecem de uma vez. Outros se afastam lentamente.

Deixam de receber novas edições, tornam-se difíceis de encontrar nas livrarias e permanecem restritos a bibliotecas, arquivos digitais ou exemplares usados. Seus autores continuam mencionados em histórias da literatura, mas parte de suas obras já não chega com facilidade aos leitores.

Isso não significa necessariamente que esses livros tenham perdido sua força. Muitas vezes, perderam apenas os caminhos que os faziam circular.

Devolver uma obra ao público começa, portanto, com uma pergunta editorial: o que ainda pode acontecer quando este texto encontra um novo leitor?

Recuperar não é simplesmente reimprimir

Uma obra não merece retornar apenas porque é antiga, rara ou está em domínio público. A passagem do tempo, por si só, não constitui um critério literário.

É preciso reconhecer no texto alguma força que justifique o reencontro: uma linguagem singular, um olhar revelador sobre determinada época, uma experiência humana que continue produzindo perguntas ou uma importância histórica que não tenha sido acompanhada pela permanência da obra entre os leitores.

Recuperar um livro também não significa atribuir-lhe uma relevância que ele nunca possuiu. Significa criar condições para que seja novamente lido e possa, no presente, sustentar sua própria existência.

O trabalho editorial começa justamente nessa escolha.

Entre o arquivo e o leitor

Encontrar o texto é apenas o primeiro passo.

Uma nova edição exige leitura atenta, conferência das fontes disponíveis, correção de falhas de transcrição e decisões sobre a maneira mais adequada de apresentar a obra. Dependendo de sua época e de suas características, pode ser necessário atualizar criteriosamente a ortografia, preservando o vocabulário, a construção das frases, o ritmo e as particularidades da escrita original.

O objetivo não é fazer o autor parecer contemporâneo.

Também não é conservar o texto como um objeto intocável, cercado por dificuldades que impeçam sua aproximação com o público. O desafio consiste em reduzir as barreiras produzidas pelo tempo sem apagar as marcas que pertencem à obra.

Cada intervenção precisa responder a uma pergunta simples: ela ajuda o leitor a chegar ao texto ou começa a substituí-lo?

Contextualizar sem determinar a leitura

Algumas obras chegam ao presente acompanhadas de referências, debates e circunstâncias que já não são imediatamente reconhecíveis.

Um prefácio, uma apresentação ou uma nota editorial pode oferecer informações sobre o autor, o momento histórico e o lugar daquele livro em sua trajetória. Esses elementos ajudam o leitor a perceber relações que poderiam permanecer invisíveis.

Contextualizar, porém, não significa encerrar o sentido da obra antes que a leitura comece.

Uma boa apresentação oferece chaves, mas não obriga o leitor a utilizá-las de uma única maneira. Aproxima o passado sem reduzir o livro a um documento de sua época. Afinal, uma obra pode carregar as marcas do momento em que foi escrita e, ainda assim, produzir significados que seu próprio autor não poderia antecipar.

O passado não retorna intacto. Ele retorna ao encontro de outras experiências, perguntas e sensibilidades.

Uma nova forma de existir

O projeto gráfico também participa dessa recuperação.

Capa, tipografia, margens, organização das páginas e materiais de apresentação não são apenas acabamentos. São parte da maneira como o livro se oferece ao leitor contemporâneo.

Uma nova edição precisa tornar visível que aquela obra voltou a circular, sem lhe impor uma aparência alheia ao seu universo. Precisa encontrar equilíbrio entre memória e presença: reconhecer a distância histórica e, ao mesmo tempo, afirmar que o livro não pertence apenas ao arquivo.

Publicar novamente é oferecer uma nova forma material para uma experiência literária que já existia, mas havia se tornado difícil de alcançar.

Construir um catálogo também é escolher o que não deve desaparecer

Uma editora revela sua identidade não apenas pelos livros que publica, mas pelas relações que estabelece entre eles.

A Proust nasceu como revista, criando um espaço para contos, poemas e memórias de autores contemporâneos. Esse trabalho continua e começa agora a conviver com outras formas de publicação.

De um lado, buscamos novas obras e vozes capazes de participar da literatura que está sendo escrita neste momento. De outro, voltamos nossa atenção para textos que já fizeram parte de nossa história literária, mas deixaram de ocupar um lugar efetivo entre os leitores.

Esses movimentos não são opostos.

O presente também se constrói pela maneira como lemos o passado. Da mesma forma, recuperar uma obra antiga só faz sentido quando ela pode participar novamente das conversas do presente.

É nesse encontro que nasce Vozes do Passado, série da Proust Editora dedicada a devolver circulação a obras da literatura brasileira que permanecem relevantes, embora hoje sejam pouco lidas ou difíceis de encontrar.

Não pretendemos tratar esses livros como relíquias. Queremos prepará-los com cuidado, oferecer-lhes contexto e permitir que voltem a fazer aquilo para o qual foram escritos: encontrar leitores.

Amanhã, apresentaremos a primeira obra desse percurso.

Um livro que atravessou o tempo está prestes a voltar a circular.