O que é uma obra híbrida — e quando ela continua sendo uma obra de ficção?

Nem toda obra literária cabe perfeitamente em uma única categoria. Há livros que contam uma história, mas incorporam cartas, diários, poemas, mensagens, documentos, fragmentos ensaísticos ou outras formas de escrita. É nesse território de encontro entre diferentes linguagens que se encontra a obra híbrida.

A série Vozes do Presente recebe, além de romances, novelas e coletâneas de contos, obras híbridas predominantemente ficcionais. Mas o que isso significa na prática?

A mistura de formas

Uma obra híbrida combina diferentes formas, gêneros ou modos de narrar dentro de um mesmo projeto literário. Ela pode, por exemplo:

  • alternar capítulos narrativos com cartas ou páginas de diário;
  • incorporar mensagens, depoimentos, transcrições ou documentos ficcionais;
  • reunir contos, fragmentos e breves passagens poéticas em uma estrutura maior;
  • aproximar a narrativa da reflexão ensaística;
  • construir uma história por meio de diferentes vozes e registros;
  • explorar uma forma fragmentária que não corresponda inteiramente ao romance, à novela ou à coletânea tradicional.

Essa combinação, porém, não deve ser apenas decorativa. Os diferentes recursos precisam participar da construção da obra: ampliar seus sentidos, desenvolver personagens, estabelecer ritmos, revelar perspectivas ou tornar possível uma experiência narrativa que uma forma única não comportaria.

O que significa “predominantemente ficcional”?

Na chamada da série Vozes do Presente, a palavra “predominantemente” é fundamental. A obra pode atravessar outros territórios, mas a ficção deve permanecer como seu centro de gravidade.

Isso significa que o livro precisa se organizar principalmente como uma criação ficcional: pela construção de personagens, vozes, situações, conflitos, atmosferas ou universos narrativos. Elementos autobiográficos, documentais, poéticos ou reflexivos podem estar presentes, desde que não substituam esse núcleo.

Toda ficção pode dialogar com experiências reais. Da mesma forma, uma obra híbrida pode partir de lembranças, acontecimentos históricos, arquivos familiares ou questões contemporâneas. O que importa é o trabalho literário realizado sobre esses materiais e o modo como eles passam a integrar uma construção ficcional.

O que não se torna uma obra híbrida apenas por receber esse nome?

O hibridismo não transforma automaticamente qualquer reunião de textos em uma obra de ficção.

Um livro composto principalmente por poemas continua sendo um livro de poesia, ainda que contenha alguns trechos narrativos. Uma reunião de reflexões permanece predominantemente ensaística quando a argumentação ocupa seu centro. Da mesma maneira, autobiografias, memórias essencialmente não ficcionais e livros de crônicas documentais não passam a ser obras híbridas de ficção somente porque empregam recursos literários.

Também não se enquadram nesta chamada romances gráficos, livros infantis ilustrados ou projetos cuja realização dependa de uma quantidade significativa de imagens, fotografias, tabelas ou recursos gráficos especiais.

A modalidade existe para acolher obras de prosa de ficção cuja forma atravessa fronteiras — não para eliminar o recorte editorial da seleção.

Algumas perguntas que podem ajudar

Se você está em dúvida sobre a modalidade de sua obra, pode considerar:

  • A ficção organiza o conjunto do livro?
  • Existe uma narrativa, ainda que fragmentária ou não linear?
  • Os diferentes gêneros e registros fazem parte de um mesmo projeto literário?
  • A mistura de formas é necessária para a experiência proposta pela obra?
  • O livro forma uma unidade, em vez de apenas reunir textos de naturezas distintas?
  • A obra pode ser publicada predominantemente como um livro de prosa, sem depender de recursos gráficos especiais?

Essas perguntas não funcionam como uma fórmula rígida, mas ajudam a identificar onde está o centro da obra.

Como apresentar uma obra híbrida na inscrição?

O formulário da série Vozes do Presente solicita uma breve apresentação da proposta literária. Esse é o espaço para explicar, com clareza, como a obra está organizada e de que maneira suas diferentes formas se relacionam.

Não é necessário justificar cada escolha ou oferecer uma interpretação completa do livro. Basta permitir que a equipe editorial compreenda sua arquitetura: o que une as partes, qual é o papel dos diferentes registros e por que a obra se apresenta como predominantemente ficcional.

As 30 páginas enviadas na primeira etapa devem ser obrigatoriamente as primeiras páginas da obra — não uma seleção de trechos. Por isso, é importante que a abertura já permita perceber, tanto quanto possível, a voz, o universo e a proposta formal do livro.

Uma obra híbrida não é uma obra sem forma. Muitas vezes, é justamente aquela que precisou encontrar uma forma própria para dizer o que desejava dizer.

A série Vozes do Presente recebe obras inéditas e integralmente concluídas, com extensão entre 20 mil e 120 mil palavras. As inscrições são gratuitas e permanecem abertas até 30 de setembro de 2026.

Leia o edital completo da série Vozes do Presente

Revista, antologia ou livro: qual edital da Proust é para o seu texto?

Neste momento, a Proust mantém três seleções abertas.

À primeira vista, elas podem parecer caminhos semelhantes: em todas, autores enviam textos para leitura e avaliação editorial. Mas cada edital corresponde a um projeto diferente — com uma proposta própria, outro tipo de publicação e uma relação distinta com a obra apresentada.

A escolha começa por uma pergunta simples: o que você escreveu?

Um conto, poema ou memória independente? Um texto relacionado ao tema das pequenas permanências? Ou uma obra de ficção completa, pensada para ser publicada como livro?

Compreender essas diferenças é o primeiro passo para encontrar o destino mais adequado para o seu trabalho.

Proust Magazine: um texto em diálogo com uma edição mensal

O edital da Proust Magazine recebe contos, poemas e memórias. Não há um tema obrigatório: cada autor pode apresentar um texto com sua própria linguagem, atmosfera e forma de olhar para o mundo.

Os trabalhos selecionados passam a integrar uma das edições mensais da revista. Embora sejam avaliados individualmente, eles não permanecem isolados. Durante a composição editorial, cada texto começa a conviver com outras vozes, imagens e experiências, formando um percurso de leitura coletivo.

A seleção é contínua. Isso significa que o edital permanece aberto mesmo depois do fechamento de uma edição específica. Quando uma revista alcança sua capacidade editorial, os novos textos recebidos seguem automaticamente para avaliação da edição seguinte.

Neste momento, a edição de setembro está próxima de completar sua composição. Com os trabalhos já selecionados, sua projeção ultrapassa 80 das aproximadamente 100 páginas previstas. Quem deseja participar especificamente dessa edição deve enviar seu texto o quanto antes. Depois do fechamento, as novas submissões serão consideradas para outubro.

A Proust Magazine é o caminho mais adequado para quem possui um texto breve e independente, já revisado e pronto para encontrar leitores dentro de uma publicação periódica.

Cadernos Proust: diferentes vozes reunidas por um tema

Cadernos Proust — pequenas permanências é uma antologia literária. Diferentemente da revista, este projeto nasce de um tema comum.

Procuramos contos, poemas e memórias sobre aquilo que resiste à passagem do tempo: um objeto, um gesto, uma lembrança, uma ausência, uma casa, uma palavra ou qualquer outra presença discreta que continue agindo sobre nós.

O tema não deve ser entendido como uma fórmula. Cada autor pode interpretá-lo livremente, a partir de sua própria experiência e linguagem. O que aproxima os textos não é a necessidade de contarem histórias semelhantes, mas o movimento de reconhecer aquilo que permaneceu.

Os trabalhos selecionados formarão uma obra coletiva, pensada como livro e publicada sob a identidade editorial da Proust. A relação entre os textos será construída em torno da proposta da antologia, e não do ritmo mensal da revista.

Cadernos Proust é, portanto, o caminho indicado para quem possui um conto, poema ou memória que dialogue de maneira significativa com o tema pequenas permanências e deseja participar de um livro coletivo.

As submissões permanecem abertas até 30 de agosto de 2026.

Vozes do Presente: uma obra completa para o catálogo da Proust

Vozes do Presente não seleciona textos avulsos para uma revista ou antologia. A série recebe obras completas de ficção destinadas à possível publicação individual no catálogo de 2027 da Proust Editora.

Podem ser inscritos romances, novelas, coletâneas de contos e projetos híbridos predominantemente ficcionais, com extensão entre 20 mil e 120 mil palavras.

Na inscrição, o autor envia apenas as 30 primeiras páginas. Essas páginas, porém, devem pertencer a uma obra já concluída.

Completa não significa definitiva. O original ainda poderá passar por revisões, mudanças estruturais e trabalho editorial. Significa apenas que seu percurso já chegou ao fim e que a obra pode ser lida integralmente, com começo, desenvolvimento e conclusão.

A seleção busca reconhecer não somente a qualidade das primeiras páginas, mas a existência de um projeto literário capaz de sustentar uma publicação própria. Os trabalhos escolhidos poderão iniciar um processo de edição e publicação como livros independentes, e não como partes de uma obra coletiva.

Vozes do Presente é o caminho adequado para quem concluiu uma obra de ficção e deseja apresentá-la para possível inclusão no catálogo da editora.

As inscrições são gratuitas e permanecem abertas até 30 de setembro de 2026, às 23h59.

A diferença não está apenas no tamanho

Um conto pode integrar a Proust Magazine, participar de Cadernos Proust ou fazer parte de uma coletânea inscrita em Vozes do Presente. O gênero, isoladamente, não determina a escolha.

O que muda é o projeto editorial.

Na revista, o texto participa de uma edição mensal e convive com trabalhos de diferentes temas.

Em Cadernos Proust, o texto integra uma antologia construída em torno de uma proposta comum.

Em Vozes do Presente, a coletânea inteira — já completa e organizada como obra — é apresentada como um projeto de livro individual.

Por isso, antes de escolher um edital, vale pensar não apenas na extensão do texto, mas também no lugar que você imagina para ele.

Ele funciona de maneira independente e pode integrar uma revista? Nasceu de uma reflexão sobre aquilo que permanece? Ou faz parte de uma obra maior que já encontrou sua forma?

Três caminhos, três destinos editoriais

Em resumo:

Proust Magazine
Para contos, poemas e memórias independentes, sem tema obrigatório. A publicação acontece em uma das edições mensais da revista, de acordo com o fluxo contínuo de seleção.

Cadernos Proust — pequenas permanências
Para contos, poemas e memórias relacionados ao tema da antologia. Os textos selecionados formarão um livro coletivo. Submissões até 30 de agosto de 2026.

Vozes do Presente
Para romances, novelas, coletâneas de contos e obras híbridas predominantemente ficcionais, completas e com extensão entre 20 mil e 120 mil palavras. As obras selecionadas poderão integrar o catálogo de 2027 da Proust Editora. Inscrições até 30 de setembro de 2026.

Participar de uma dessas seleções começa com uma escolha editorial: reconhecer o que o texto deseja ser e em que forma ele poderá encontrar seus leitores.

Antes de enviar, leia atentamente o edital correspondente. Nele estão as orientações completas sobre proposta, formatação, documentação e processo de submissão.

  • Proust Magazine: edital.
  • Cadernos Proust — pequenas permanências: edital.
  • Vozes do Presente: edital.

A edição de setembro começa a se aproximar de sua forma final

Uma edição literária começa muito antes de suas páginas serem diagramadas.

Ela começa quando os primeiros textos chegam, ainda separados uns dos outros. Cada conto, poema ou memória é lido individualmente, sem que seja possível prever que relações surgirão entre eles ou que forma a revista assumirá.

Pouco a pouco, porém, a edição começa a revelar seus contornos.

Nas últimas semanas, recebemos um número expressivo de submissões para a terceira edição da Proust Magazine, prevista para setembro. Com os textos selecionados até o momento, a projeção atual da revista já ultrapassa 80 páginas — de uma extensão aproximada de 100 páginas prevista para a edição completa.

Isso significa que estamos nos aproximando da etapa final de sua composição editorial.

Não haverá uma data fixa para o encerramento

Desta vez, não estabeleceremos antecipadamente um dia específico para o fechamento das submissões destinadas à edição de setembro.

A seleção continuará enquanto houver espaço editorial para incorporar novos textos à revista. Quando a composição alcançar a extensão prevista, consideraremos encerrada essa etapa e os novos trabalhos recebidos passarão automaticamente a ser avaliados para a edição de outubro.

O edital da Proust Magazine permanece aberto. Não se trata, portanto, do encerramento das submissões à revista, mas da aproximação do limite editorial de uma edição específica.

Esse funcionamento está previsto em nosso Edital Permanente de Seleção Literária: a seleção acontece continuamente, e os textos recebidos depois do fechamento da edição mensal vigente são considerados para a edição seguinte.

Uma revista também é feita de limites

A extensão aproximada de 100 páginas não representa apenas uma medida gráfica.

Cada texto precisa encontrar espaço para respirar. Um poema não ocupa a página da mesma maneira que um conto. Certos trabalhos pedem uma abertura própria; outros estabelecem relações com os textos que vêm antes ou depois. Há também as apresentações dos autores, as imagens, os intervalos e os espaços em branco que fazem parte da experiência de leitura.

Por isso, não basta acrescentar textos indefinidamente. Em algum momento, é necessário reconhecer que a edição encontrou sua dimensão e começar o trabalho de fechamento, revisão e organização do conjunto.

Chegar a esse ponto tão rapidamente é motivo de alegria. Revela a confiança dos autores que decidiram entregar seus textos à Proust e confirma que há muitas vozes procurando um espaço de leitura cuidadosa e publicação.

Também exige clareza: restam poucas possibilidades de inclusão na edição de setembro.

Se o texto está pronto, este é o momento de enviá-lo

Quem deseja participar especificamente da terceira edição deve realizar a submissão o quanto antes.

Isso não significa enviar um trabalho ainda incompleto ou abrir mão de uma última revisão. Antes de encaminhá-lo, vale conferir o arquivo, reler o começo e o fim, verificar a formatação e confirmar se todas as informações solicitadas estão presentes.

Mas, se o texto já encontrou sua forma, não recomendamos esperar por uma data final. A composição da edição poderá ser concluída em breve, assim que os textos selecionados ocuparem a extensão editorial prevista.

Os trabalhos que chegarem depois desse momento permanecerão normalmente em nosso fluxo de leitura e serão considerados para a edição de outubro, seguindo os mesmos critérios editoriais.

A Proust Magazine recebe contos, poemas e memórias. Cada trabalho é lido com atenção e avaliado a partir de sua linguagem, de sua construção e da experiência que oferece ao leitor.

A edição de setembro ainda está aberta.

Mas suas páginas já começaram a encontrar seus lugares.

Se o seu texto está pronto, consulte o edital completo e envie sua submissão.

Por que a obra precisa estar completa para participar de Vozes do Presente?

Uma dúvida pode surgir durante a leitura do edital de Vozes do Presente: se a inscrição solicita apenas as 30 primeiras páginas, por que a obra precisa estar completa?

A resposta está na diferença entre apresentar uma parte do texto e inscrever um projeto ainda em construção. As primeiras páginas são o material solicitado para a inscrição, mas devem pertencer a uma obra que já exista como um todo.

As primeiras páginas são uma porta de entrada

Todo começo estabelece uma relação com o leitor. Nele aparecem a voz narrativa, o ritmo, a atmosfera, os conflitos e as primeiras escolhas formais da obra.

Por isso, as 30 páginas permitem um contato inicial significativo com o texto. Elas não precisam resumir toda a história nem apresentar imediatamente cada personagem, tema ou acontecimento importante. Precisam, sobretudo, revelar a experiência literária que começa a se formar.

Mas essas páginas ganham outra consistência quando o autor já chegou ao final da obra.

Quem concluiu o percurso pode retornar ao início com uma percepção mais ampla: reconhecer promessas que precisam ser desenvolvidas, eliminar caminhos abandonados, fortalecer imagens recorrentes e perceber se o tom das primeiras páginas corresponde ao restante do livro.

O que significa considerar uma obra completa?

Uma obra completa é aquela cujo percurso imaginado pelo autor chegou ao fim. Isso significa que o romance, a novela, a coletânea de contos ou a obra híbrida já possui a extensão, a estrutura e o desfecho que o autor considera necessários para sua leitura integral.

Não é apenas uma ideia, uma sinopse, uma amostra ou um conjunto de capítulos que ainda dependerá de uma continuação para se transformar em livro.

No caso de uma coletânea, por exemplo, os textos que formarão o conjunto já devem estar definidos e organizados. Em uma obra híbrida, as diferentes formas que compõem o projeto precisam estabelecer entre si uma unidade reconhecível. Em uma narrativa longa, o arco principal deve ter alcançado a conclusão pretendida.

Isso não significa que o texto precise estar perfeito. Significa que ele já pode ser lido como uma obra inteira.

Completo não quer dizer definitivo

Concluir uma obra não é fechar todas as possibilidades de mudança.

Mesmo um original completo pode passar por novas revisões. Durante o trabalho editorial, podem surgir ajustes de linguagem, estrutura, ritmo, continuidade ou organização. Certos trechos podem crescer; outros, desaparecer. Um título pode mudar. Uma personagem pode ganhar mais espaço. Uma passagem que parecia indispensável pode revelar-se excessiva.

A edição não substitui a conclusão da escrita, mas estabelece um novo diálogo com ela.

Existe, portanto, uma diferença importante entre um original completo e um original definitivo. O primeiro já sustenta uma leitura integral. O segundo talvez nem exista: muitas obras continuam oferecendo possibilidades de transformação mesmo depois de o autor decidir que chegou o momento de compartilhá-las.

Chegar ao final também transforma o começo

Durante a escrita, nem sempre sabemos exatamente que livro estamos escrevendo. Algumas respostas aparecem apenas quando a narrativa encontra sua forma.

Ao concluir o original, o autor pode retornar às primeiras páginas e perguntar:

  • O início apresenta a voz que permanecerá ao longo da obra?
  • As promessas feitas ao leitor encontram desenvolvimento?
  • Há elementos introduzidos que depois são abandonados?
  • O ritmo inicial corresponde à experiência proposta pelo livro?
  • O texto começa no momento mais significativo?
  • A leitura integral revela unidade entre forma, linguagem e conteúdo?

Essas perguntas não conduzem a uma fórmula. Cada obra estabelece suas próprias necessidades. Um início pode ser lento ou abrupto, silencioso ou excessivo, enigmático ou direto. O importante é que suas escolhas façam sentido dentro do livro que efetivamente foi escrito.

Uma seleção voltada para obras, não apenas para possibilidades

Vozes do Presente busca obras de ficção para o catálogo de 2027 da Proust Editora. Por isso, a exigência de que o original esteja completo indica uma etapa de maturidade do projeto.

Não se espera que o texto esteja imune a revisões, mas que já seja possível reconhecer sua proposta, sua forma e seu percurso. A seleção parte do encontro com uma obra realizada — ainda aberta ao diálogo editorial, mas não dependente de uma escrita futura para existir.

Antes de se inscrever, vale reservar algum tempo para reler o original como um leitor: observar a relação entre começo e fim, verificar a coerência do conjunto e avaliar se as primeiras páginas representam verdadeiramente o livro.

As 30 páginas enviadas não são uma obra em miniatura. São a entrada para um universo que já precisa estar construído além delas.

As inscrições para Vozes do Presente estão abertas até 30 de setembro de 2026. Podem participar romances, novelas, coletâneas de contos e obras híbridas predominantemente ficcionais, com extensão entre 20 mil e 120 mil palavras.

O que as primeiras 30 páginas revelam sobre uma obra?

As primeiras páginas de um livro não precisam explicar tudo. Não precisam apresentar todos os personagens, esclarecer cada conflito ou antecipar o sentido completo da narrativa. Mas precisam oferecer ao leitor uma razão para continuar.

Em uma chamada de originais, as primeiras 30 páginas funcionam como uma porta de entrada para a obra. É por meio delas que a leitura editorial começa a perceber a voz do autor, o ritmo da narrativa, a construção da atmosfera e a promessa literária do livro.

Isso não significa que a história precise começar com uma cena extraordinária ou um acontecimento decisivo. Uma abertura silenciosa pode ser tão forte quanto uma ação inesperada. O que importa é que, desde o início, exista intenção.

A voz da obra

Uma das primeiras coisas que se revela é a voz narrativa.

Ela está na escolha das palavras, na extensão das frases, na proximidade ou distância em relação aos personagens e na maneira como o texto organiza aquilo que observa. Mesmo quando a linguagem parece simples, há sempre uma perspectiva em funcionamento.

Uma voz consistente não precisa ser ostensiva ou excessivamente singular. Ela precisa parecer necessária àquela obra. O leitor deve sentir que existe uma consciência conduzindo a narrativa e que as escolhas de linguagem não aconteceram por acaso.

O ponto de partida

As primeiras páginas também permitem perceber se a obra começa no lugar certo.

Muitos originais demoram a entrar em movimento porque tentam explicar o passado dos personagens, apresentar todo o universo narrativo ou preparar longamente o leitor para algo que ainda acontecerá. Em alguns casos, o início verdadeiro está várias páginas adiante.

Isso não significa que toda obra deva começar em plena ação. Significa apenas que a narrativa precisa produzir desde cedo alguma forma de interesse: uma pergunta, uma tensão, uma presença, uma situação ou uma maneira particular de olhar.

O leitor não precisa compreender tudo imediatamente. Precisa perceber que vale a pena permanecer.

Ritmo e construção

Trinta páginas já permitem observar como o texto administra o tempo.

A narrativa avança ou permanece imobilizada? As cenas têm espaço para acontecer? Os diálogos produzem movimento? As descrições ampliam a experiência ou apenas interrompem o fluxo? Há equilíbrio entre o que é mostrado, narrado, sugerido e explicado?

Não existe um ritmo ideal para todas as obras. Um romance contemplativo pode avançar lentamente; uma novela pode exigir maior concentração; uma coletânea de contos pode apresentar mudanças significativas entre um texto e outro.

O que procuramos é coerência entre o ritmo escolhido e a experiência que a obra deseja criar.

A promessa literária

As primeiras páginas não precisam entregar a totalidade do livro, mas devem apresentar uma promessa.

Essa promessa pode surgir de muitas formas:

  • uma personagem que desperta interesse;
  • uma situação ainda não inteiramente compreendida;
  • uma atmosfera bem construída;
  • uma tensão entre aquilo que é dito e aquilo que permanece oculto;
  • uma linguagem capaz de transformar uma experiência aparentemente comum;
  • uma pergunta que acompanha o leitor mesmo depois de interromper a leitura.

A promessa literária não é um truque para prender a atenção. É a percepção de que o texto abriu um caminho e possui recursos para percorrê-lo.

O que as primeiras páginas não precisam fazer

Uma abertura não precisa resumir a obra nem demonstrar todas as habilidades do autor.

Também não precisa:

  • começar com uma frase criada apenas para causar impacto;
  • apresentar imediatamente todos os personagens;
  • explicar o passado completo do protagonista;
  • revelar o conflito principal de maneira explícita;
  • acelerar artificialmente a narrativa;
  • acumular imagens, metáforas ou acontecimentos;
  • antecipar temas que ainda não encontraram forma dentro da história.

Quando o início tenta provar demais, pode acabar abafando a própria obra. Em geral, as melhores primeiras páginas não anunciam sua importância: elas permitem que o leitor a descubra.

Antes de enviar

Vale reler as primeiras 30 páginas separadamente, sem esquecer que elas pertencem a um original completo.

Pergunte:

  • a obra começa no ponto mais adequado?
  • existe alguma preparação que poderia ser reduzida?
  • a voz narrativa permanece consistente?
  • cada cena contribui para o movimento do livro?
  • há explicações que o leitor poderia compreender sozinho?
  • os personagens começam a adquirir presença?
  • a linguagem está a serviço da experiência narrativa?
  • ao final da amostra, existe vontade de continuar?

Essa leitura não deve transformar o início em uma peça isolada ou artificial. As primeiras páginas precisam representar com honestidade o livro que virá depois.

Na chamada da série Vozes do Presente, a Proust Editora solicita obrigatoriamente as 30 primeiras páginas — e não capítulos ou trechos escolhidos de outras partes da obra. O original deve estar integralmente concluído no momento da inscrição.

Recebemos romances, novelas, coletâneas de contos e obras híbridas predominantemente ficcionais para o catálogo de 2027.

As inscrições são gratuitas e permanecem abertas até 30 de setembro de 2026.

Conheça a série, leia o edital completo e envie sua obra:

Proust Editora abre chamada de originais para a série Vozes do Presente

A Proust Editora abre publicamente as inscrições para a primeira chamada de originais da série Vozes do Presente, criada para formar seu catálogo de ficção de 2027.

A proposta é publicar obras que expressem diferentes maneiras de perceber, interpretar e narrar a experiência contemporânea. O presente não precisa aparecer como tema direto: pode estar na linguagem, nas inquietações da narrativa, na construção dos personagens, no tratamento do tempo e da memória ou na maneira como o autor reorganiza literariamente a experiência.

Obras que podem participar

A chamada recebe:

  • romances;
  • novelas;
  • coletâneas de contos;
  • obras híbridas predominantemente ficcionais.

Os originais devem ser de autoria individual, estar integralmente concluídos, ser escritos em língua portuguesa e ter entre 20 mil e 120 mil palavras. Podem participar autores maiores de 18 anos, de qualquer nacionalidade, residentes ou não no Brasil.

Cada autor poderá inscrever até duas obras, por meio de formulários separados.

Como funcionará a seleção

Na primeira etapa, o autor enviará as 30 páginas iniciais da obra, acompanhadas de sinopse, apresentação da proposta literária, breve biografia e informações sobre o original.

A Proust solicitará a obra completa apenas aos autores que avançarem no processo. Nenhuma decisão final será tomada exclusivamente com base na amostra inicial.

As inscrições e a avaliação são gratuitas. O resultado será divulgado até 30 de novembro de 2026.

Publicação em parceria

Os autores selecionados receberão uma proposta individual de publicação em parceria. A seleção não obriga o autor a aceitar a proposta nem a assinar contrato.

O projeto editorial poderá incluir preparação e revisão do texto, criação de capa, projeto gráfico, diagramação, registros editoriais, publicação, inserção no catálogo e ações de lançamento e divulgação.

A participação autoral nos custos será exigida somente após a seleção, caso o autor aceite formalmente a proposta. Os valores, as etapas de pagamento, os royalties e todas as demais condições estão apresentados de forma transparente no edital.

Não haverá compra mínima de exemplares nem condicionamento da publicação ao cumprimento de metas de venda.

Um novo passo para a Proust

Depois de criar uma revista dedicada à literatura de autoria própria e abrir espaços de circulação para diferentes vozes, a Proust começa agora a construir um catálogo de livros.

Vozes do Presente nasce desse movimento: descobrir projetos literários, acompanhar seu desenvolvimento editorial e contribuir para que obras singulares encontrem seus leitores.

As inscrições permanecem abertas até 30 de setembro de 2026, às 23h59.

Conheça a série, leia o edital completo e envie sua obra:

Quando a revista se torna objeto

A segunda edição impressa da Proust Magazine chegou.

Até esse momento, ela existia como seleção, leitura, revisão, desenho, sequência e promessa. Agora, existe também como matéria: papel, peso, textura, margem, silêncio entre uma página e outra.

Há algo que muda quando um texto deixa a tela. A leitura desacelera. O gesto se torna mais atento. A página impõe outro ritmo e convida o leitor a permanecer um pouco mais.

Foi com esse espírito que construímos esta edição.

A segunda Proust Magazine reúne contos, poemas e memórias escolhidos não apenas pela qualidade isolada, mas pela capacidade de conviverem entre si. Cada texto preserva sua voz, ao mesmo tempo que participa de uma composição maior — uma edição pensada como percurso.

O resultado é uma publicação para ser lida sem pressa.

Pode-se começar pelo início, seguir o movimento proposto pelo sumário e atravessar a revista como quem percorre uma casa. Mas também é possível abri-la ao acaso, encontrar um poema, deter-se em uma imagem, voltar mais tarde a uma passagem que permaneceu na memória.

A edição impressa acrescenta ainda outra dimensão à revista: a permanência.

Ela pode ocupar um lugar na estante, repousar sobre uma mesa, ser emprestada, presenteada ou reencontrada depois de algum tempo. Guarda os textos, mas também registra um momento da Proust Magazine, de seus autores e de seus leitores.

Não pensamos a revista apenas como um conjunto de conteúdos. Pensamos nela como um objeto editorial: algo que merece cuidado em sua forma porque carrega experiências, vozes e lembranças em suas páginas.

Ver o exemplar pronto é também reconhecer o trabalho de todos que ajudaram a torná-lo possível — autores, leitores, colaboradores e integrantes da comunidade que cresce ao redor da revista.

A segunda edição impressa da Proust Magazine já está disponível para quem deseja lê-la longe das telas, guardá-la em sua biblioteca ou oferecê-la a outro leitor.

Talvez algumas leituras terminem na última página.

Outras continuam no objeto que permanece.

O que procuramos para a terceira edição da Proust Magazine

A terceira edição da Proust Magazine, prevista para setembro, já começou a ser construída.

Como nas edições anteriores, procuramos textos que não dependam apenas de uma boa ideia, mas que revelem atenção à linguagem, consistência de voz e uma forma própria de olhar para o mundo.

Recebemos contos, poemas e memórias. Não há um tema obrigatório. O que nos interessa é a força do texto: sua capacidade de criar uma atmosfera, sustentar uma experiência e permanecer no leitor depois da última linha.

Isso pode acontecer de muitas maneiras.

Em um conto, pode estar na precisão de uma cena, no ritmo da narrativa, na construção de uma personagem ou no modo como o texto sugere mais do que explica.

Em um poema, pode surgir na escolha de uma imagem, na tensão entre as palavras, na musicalidade ou naquilo que permanece em silêncio.

Em uma memória, pode nascer do olhar lançado sobre uma experiência vivida — não apenas do que aconteceu, mas da forma como o tempo, a linguagem e a lembrança transformam aquilo que foi vivido.

Não procuramos textos excessivamente ornamentados nem escritos para corresponder a uma fórmula. Também não esperamos que todos tenham o mesmo tom, estilo ou extensão. A Proust Magazine deseja reunir vozes distintas, desde que cada uma delas apresente intenção, cuidado e unidade.

Antes de enviar, vale reler o texto com algumas perguntas em mente:

Ele começa no ponto certo?

Cada passagem contribui para o movimento do conjunto?

Há trechos que explicam aquilo que o leitor já pode compreender?

A linguagem está a serviço do texto ou chama atenção apenas para si mesma?

O encerramento amplia a experiência ou apenas a conclui?

Nenhum texto precisa ser perfeito para ser submetido. Mas é importante que tenha passado por uma revisão atenta e que seu autor reconheça nele uma forma já suficientemente amadurecida para encontrar novos leitores.

A seleção não é uma busca pelo texto “mais correto” ou pelo autor com maior trajetória. É uma leitura de conjunto: procuramos obras que tenham identidade própria e que possam dialogar com as demais páginas da edição.

Se você escreve contos, poemas ou memórias e acredita que um de seus textos está pronto para seguir adiante, convidamos você a conhecer o edital permanente da Proust Magazine.

A terceira edição começa agora — e talvez uma de suas páginas esteja com você.

Uma sala para continuar a conversa

Algumas conversas começam com um livro, atravessam uma página e continuam muito depois da leitura.

Foi desse desejo que nasceu o Salão Literário da Proust Magazine: criar um espaço em que leitores, autores e pessoas interessadas em literatura possam trocar impressões, compartilhar descobertas, comentar textos, indicar livros e acompanhar as conversas que surgem em torno da revista.

O Salão não exige presença constante. Há quem participe com frequência, quem apareça apenas quando um tema desperta interesse e quem prefira acompanhar em silêncio. Todas essas formas de presença são bem-vindas.

Mais do que um grupo de mensagens, buscamos cultivar uma atmosfera: atenta, acolhedora, generosa e dedicada à literatura. Um lugar em que a divulgação de textos, livros, projetos e eventos possa acontecer com contexto e moderação; em que as diferenças de leitura ampliem a conversa; e em que cada participante ajude a preservar o cuidado com o espaço comum.

O Salão também é uma forma de aproximar a Proust Magazine de seus leitores. Ali, compartilhamos novidades, abrimos conversas sobre leitura e escrita e acompanhamos o caminho de cada nova edição.

Não é preciso ser escritor, publicar livros ou conhecer profundamente teoria literária. Basta gostar de literatura e desejar fazer parte de uma comunidade em que os livros sejam ponto de encontro.

Se essa proposta faz sentido para você, será um prazer recebê-lo no Salão Literário da Proust Magazine.

Entre por aqui e venha continuar essa conversa conosco.

O que faz de um grupo de leitores uma comunidade literária?

Nem todo grupo reunido em torno dos livros se torna, de fato, uma comunidade literária.

À primeira vista, basta aproximar pessoas que gostam de ler e escrever. Logo surgem indicações, comentários, poemas, notícias, convites, dúvidas e descobertas. Mas a existência de um interesse comum não garante, por si só, a construção de um espaço de convivência.

Uma comunidade começa quando as pessoas percebem que não estão apenas enviando mensagens: estão entrando em uma sala compartilhada.

Toda sala tem uma atmosfera. Ela se forma aos poucos, pelo tom das conversas, pela atenção concedida aos outros e pela capacidade de reconhecer o momento adequado para falar, escutar ou permanecer em silêncio. No ambiente digital, onde tudo chega com rapidez e compete por alguns segundos de atenção, esse cuidado se torna ainda mais necessário.

O silêncio, aliás, também é uma forma de participação. Há leitores que comentam frequentemente, outros que aparecem apenas quando determinado texto os toca e muitos que acompanham as conversas sem se manifestar. Nenhuma dessas presenças é menos legítima. Uma comunidade literária não exige desempenho constante. Ela oferece espaço para diferentes maneiras de estar perto da literatura.

Isso não significa ausência de espontaneidade. Pelo contrário: os melhores encontros são aqueles nos quais uma lembrança, uma leitura ou uma pergunta podem surgir sem cerimônia. Mas a espontaneidade não precisa excluir a atenção. Antes de compartilhar alguma coisa, talvez baste perguntar: isso contribui para a conversa que estamos construindo?

A divulgação de livros, projetos, eventos e trabalhos autorais também pode enriquecer o espaço. Uma comunidade literária deve permitir que seus participantes apresentem aquilo que criam. A diferença está na maneira de fazê-lo. Quando há contexto, moderação e disposição para também conhecer o trabalho dos outros, a divulgação deixa de ser apenas promoção e passa a fazer parte da troca.

O mesmo vale para as discordâncias. A literatura dificilmente produz unanimidade — e talvez nem devesse produzi-la. Um texto pode comover um leitor e deixar outro indiferente. Uma interpretação pode revelar o que alguém não havia percebido. Divergir, nesse ambiente, não deveria significar encerrar a conversa, mas ampliá-la.

Construir uma comunidade literária é, portanto, um trabalho discreto. Depende menos de grandes declarações do que de pequenos gestos repetidos: acolher quem chega, responder com generosidade, evitar ocupar todo o espaço, compartilhar com critério, respeitar o silêncio e lembrar que, do outro lado de cada mensagem, existe alguém oferecendo parte de sua atenção.

Talvez seja isso que diferencia uma comunidade de um simples fluxo de notificações.

Os livros nos aproximam, mas é o cuidado com a convivência que permite que permaneçamos juntos.