O navio brasileiro que surpreendeu Nova Orleans

“Como? Pois no Brasil também se fabricam navios de guerra?” A pergunta, registrada por Adolfo Caminha em No País dos Ianques, aparece durante a passagem do Almirante Barroso por Nova Orleans. O cruzador impressionava os visitantes. A notícia de que havia sido construído no Brasil parecia impressioná-los ainda mais.

A cena faz parte de uma visita marcada por recepções, discursos e curiosidade pública. Ao contá-la, Caminha reúne a satisfação de ver o Brasil homenageado e a irritação diante de uma dúvida que os visitantes não conseguiam esconder.

Almirante Barroso, fotografado por Marc Ferrez em 1888, na Baía de Guanabara, Rio de Janeiro. Acervo Instituto Moreira Salles. Domínio público. Recorte de um registro feito em outro momento da trajetória do navio.

Um dia brasileiro na exposição

No encerramento da Exposição das Três Américas, os oficiais do Barroso deveriam comparecer em grande uniforme. Um trem especial os levou ao palácio da exposição, enfeitado com bandeirolas de várias nações. Caminha descreve a manhã chuvosa, o nevoeiro e a música que acompanhava a partida.

Nos convites para a festividade, conta o escritor, lia-se “Brasilian day”. A expressão aparece assim, com s, nesse trecho da edição de 1894 e no texto da Proust.

“Foi um dia essencialmente brasileiro esse.”

Detalhe da página 71 de No Paiz dos Yankees, edição de 1894. O fac-símile preserva a grafia original. Internet Archive / Wikimedia Commons. Domínio público.

A entrada dos brasileiros no salão foi recebida com palmas e vivas ao país. Vieram os discursos, as saudações à armada brasileira e as palavras em favor de uma união entre as nações americanas. Caminha guardaria a lembrança da hospitalidade e das gentilezas daquela festa.

O pavilhão que deixava a desejar

Quando a cerimônia terminou, os visitantes puderam percorrer os pavilhões. Foi aí que a satisfação do escritor encontrou um motivo de desconforto: a representação brasileira lhe pareceu insignificante diante dos recursos do país.

Entre os produtos expostos, ele enumera madeiras, café em grão, fumo e artigos de borracha. Sua crítica se dirige à seleção e à apresentação do que o Brasil levara ao certame. Caminha considera que o país tinha muito mais a mostrar.

“Brilharíamos pela ausência, se o Governo não tivesse a lembrança de mandar o Almirante Barroso.”

O navio, ancorado no Mississipi, parecia oferecer aos visitantes uma imagem que o pavilhão não conseguira apresentar. Ainda assim, havia quem duvidasse que aquele cruzador fosse obra brasileira. É nesse ponto que Caminha registra a pergunta sobre a fabricação de navios de guerra no Brasil.

Uma exposição que se prolongava a bordo

No capítulo seguinte, a curiosidade toma conta do navio. Os visitantes perguntam pelos canhões e pelo funcionamento das máquinas. Os oficiais explicam que o Barroso é de construção nacional. Segundo o narrador, a surpresa aumenta:

“It is impossible!…”

“É impossível!”, em tradução. A exclamação em inglês dá voz à incredulidade que Caminha descreve. Enquanto isso, as lanchas iam e vinham entre o cais e o cruzador, cheias de passageiros.

Detalhe da página 84 de No Paiz dos Yankees, edição de 1894, com a construção nacional e a reação dos visitantes. Internet Archive / Wikimedia Commons. Domínio público.

Da câmara do comandante ao alojamento dos marinheiros, do tombadilho ao porão, o Barroso foi aberto à visitação. A exposição parecia ter se prolongado até o navio, e os oficiais passavam horas conduzindo famílias, descrevendo aparelhos e respondendo a perguntas.

A construção brasileira também está documentada na ficha histórica do cruzador preservada pela Marinha: sua quilha foi batida no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro em 1880, e o lançamento ao mar ocorreu em 1882.

O que Caminha guarda dessa visita

O episódio reúne sentimentos que o escritor deixa conviver: a alegria da recepção, o orgulho pelo navio, a impaciência com a dúvida dos visitantes e a crítica à representação brasileira na exposição. Essa combinação dá movimento ao relato e faz uma pergunta ouvida junto ao cruzador permanecer na memória do leitor.

Este é o terceiro episódio da nossa série sobre No País dos Ianques. Nos anteriores, visitamos o hotel sobre trilhos e o elefante de Coney Island e conhecemos o carneiro do Barroso que foi parar no New York Herald.

A nova edição da Proust

No País dos Ianques, de Adolfo Caminha, abre a coleção Vozes do Passado, da Proust Editora. A nova edição atualiza a ortografia e preserva o vocabulário, a sintaxe e o estilo do autor.

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Créditos e fontes

Fonte do relato: Adolfo Caminha, No Paiz dos Yankees, Rio de Janeiro: D. de Magalhães, 1894, capítulos VII e VIII, especialmente pp. 71–78 e 83–85. Edição digitalizada em domínio público. As citações destacadas foram conferidas com o texto da edição Proust; os fac-símiles mantêm a grafia de 1894.

Fotografia: Marc Ferrez, Cruzador Almirante-Barroso, 1888. Acervo Instituto Moreira Salles, coleção Gilberto Ferrez. Registro da imagem e indicação de domínio público.

Informação sobre a construção do navio: Almirante Barroso, cruzador de 1882–1893, Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha.

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Autor: prousteditora

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