Quando o cruzador Barroso chegou a Nova York, um repórter do New York Herald esteve entre os primeiros a subir a bordo. Segundo Adolfo Caminha, a descrição publicada no dia seguinte era tão minuciosa que incluía até um carneiro de estimação levado pela tripulação.
O episódio ocupa poucas linhas de No País dos Ianques, publicado em 1894. É uma pequena cena em que se encontram a curiosidade do jornalista, a vida cotidiana de um navio e o humor de um escritor brasileiro diante do que observa.

Uma visita de cartola e sobrecasaca
O Barroso havia fundeado em frente à Battery Square e começava a receber as visitas oficiais do cônsul brasileiro e de outras autoridades. Entre os primeiros visitantes, Caminha faz questão de destacar o repórter do New York Herald.
Seu retrato é preciso: cartola, sobrecasaca de pano, bigode louro, olhos azuis. O visitante aparece como um homem amável e expansivo. Antes de contar o que o jornalista escreveu, Caminha registra sua presença a bordo e dá um rosto ao encontro.
O carneiro entra na notícia
Segundo o relato, a reportagem do dia seguinte descrevia o cruzador com “uma precisão fotográfica”. E o olhar do repórter alcançava um passageiro improvável:
“sem esquecer mesmo um carneiro de estima que trazíamos”
Caminha conta que o jornalista incluía o animal na lotação do navio e ainda lhe emprestava “qualidades invejáveis”. Na descrição do cruzador brasileiro, o carneiro também conquistava seu lugar.
É então que o narrador encerra o episódio com uma ironia:
“Creio até que o pobre lanígero figurou na folha yankee entre os heróis de Humaitá!”

Entre o carneiro e os heróis
“Lanígero” é o animal que tem lã: aqui, o carneiro. O vocábulo solene participa da graça da frase, que aproxima o pequeno companheiro de viagem de uma memória militar.
Humaitá remete à Guerra do Paraguai e, na história naval brasileira, à passagem realizada em 1868. Ao imaginar o carneiro entre aqueles heróis, Caminha leva a descrição jornalística ao exagero cômico.
O “Creio até” é decisivo para a leitura: trata-se da brincadeira do narrador. A frase que chega até nós é a de Caminha, que reconta a visita do repórter e comenta a cobertura do jornal.
O humor de Caminha em No País dos Ianques
Em poucos parágrafos, o escritor passa das formalidades da chegada ao traje do visitante, da descrição do navio ao seu animal de estimação. Esse movimento dá vida ao relato: cada detalhe pode abrir uma história dentro da viagem.
Encerradas as visitas oficiais, Caminha se prepara para conhecer a cidade. A breve passagem do carneiro permanece como um exemplo de sua atenção ao imprevisto e de sua maneira de fazer o leitor sorrir durante a travessia.
Este é o segundo episódio da nossa série sobre No País dos Ianques. No primeiro, visitamos o hotel sobre trilhos e o edifício em forma de elefante de Coney Island, outras cenas que surpreenderam o escritor.
A nova edição da Proust
No País dos Ianques abre a coleção Vozes do Passado, da Proust Editora. A nova edição atualiza a ortografia e preserva o vocabulário, a sintaxe e o estilo de Adolfo Caminha.
A pré-venda está disponível por R$ 69 + frete, até 4 de outubro de 2026.
Conheça a edição e garanta seu exemplar.
Créditos e fontes
Fotografia: Marc Ferrez, Cruzador Almirante Barroso, 1888. Acervo Instituto Moreira Salles, coleção Gilberto Ferrez. Registro da imagem e indicação de domínio público.
Fonte do relato: Adolfo Caminha, No Paiz dos Yankees, Rio de Janeiro: D. de Magalhães, 1894, pp. 131–132. Edição digitalizada em domínio público. As citações em destaque seguem a ortografia da edição Proust.
Contexto histórico: Boletim da Divisão Avançada comunicando a Passagem de Humaitá, de 19 de fevereiro de 1868, Arquivo da Marinha, reproduzido na revista Navigator, n. 27.
Deliciosa a maneira como Caminha transforma um detalhe banal da reportagem em uma pequena cena de humor 🙂
CurtirCurtido por 1 pessoa