O carneiro do Barroso que foi parar no New York Herald

Quando o cruzador Barroso chegou a Nova York, um repórter do New York Herald esteve entre os primeiros a subir a bordo. Segundo Adolfo Caminha, a descrição publicada no dia seguinte era tão minuciosa que incluía até um carneiro de estimação levado pela tripulação.

O episódio ocupa poucas linhas de No País dos Ianques, publicado em 1894. É uma pequena cena em que se encontram a curiosidade do jornalista, a vida cotidiana de um navio e o humor de um escritor brasileiro diante do que observa.

Cruzador Almirante Barroso, fotografado por Marc Ferrez em 1888, na Baía de Guanabara, Rio de Janeiro. Acervo Instituto Moreira Salles. Domínio público. Recorte da fotografia, que registra outro momento da trajetória do navio.

Uma visita de cartola e sobrecasaca

O Barroso havia fundeado em frente à Battery Square e começava a receber as visitas oficiais do cônsul brasileiro e de outras autoridades. Entre os primeiros visitantes, Caminha faz questão de destacar o repórter do New York Herald.

Seu retrato é preciso: cartola, sobrecasaca de pano, bigode louro, olhos azuis. O visitante aparece como um homem amável e expansivo. Antes de contar o que o jornalista escreveu, Caminha registra sua presença a bordo e dá um rosto ao encontro.

O carneiro entra na notícia

Segundo o relato, a reportagem do dia seguinte descrevia o cruzador com “uma precisão fotográfica”. E o olhar do repórter alcançava um passageiro improvável:

“sem esquecer mesmo um carneiro de estima que trazíamos”

Caminha conta que o jornalista incluía o animal na lotação do navio e ainda lhe emprestava “qualidades invejáveis”. Na descrição do cruzador brasileiro, o carneiro também conquistava seu lugar.

É então que o narrador encerra o episódio com uma ironia:

“Creio até que o pobre lanígero figurou na folha yankee entre os heróis de Humaitá!”

Detalhe da página 132 de No Paiz dos Yankees, edição de 1894. Digitalização disponibilizada pelo Internet Archive e Wikimedia Commons. Domínio público. O fac-símile preserva a grafia original.

Entre o carneiro e os heróis

“Lanígero” é o animal que tem lã: aqui, o carneiro. O vocábulo solene participa da graça da frase, que aproxima o pequeno companheiro de viagem de uma memória militar.

Humaitá remete à Guerra do Paraguai e, na história naval brasileira, à passagem realizada em 1868. Ao imaginar o carneiro entre aqueles heróis, Caminha leva a descrição jornalística ao exagero cômico.

O “Creio até” é decisivo para a leitura: trata-se da brincadeira do narrador. A frase que chega até nós é a de Caminha, que reconta a visita do repórter e comenta a cobertura do jornal.

O humor de Caminha em No País dos Ianques

Em poucos parágrafos, o escritor passa das formalidades da chegada ao traje do visitante, da descrição do navio ao seu animal de estimação. Esse movimento dá vida ao relato: cada detalhe pode abrir uma história dentro da viagem.

Encerradas as visitas oficiais, Caminha se prepara para conhecer a cidade. A breve passagem do carneiro permanece como um exemplo de sua atenção ao imprevisto e de sua maneira de fazer o leitor sorrir durante a travessia.

Este é o segundo episódio da nossa série sobre No País dos Ianques. No primeiro, visitamos o hotel sobre trilhos e o edifício em forma de elefante de Coney Island, outras cenas que surpreenderam o escritor.

A nova edição da Proust

No País dos Ianques abre a coleção Vozes do Passado, da Proust Editora. A nova edição atualiza a ortografia e preserva o vocabulário, a sintaxe e o estilo de Adolfo Caminha.

A pré-venda está disponível por R$ 69 + frete, até 4 de outubro de 2026.

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Créditos e fontes

Fotografia: Marc Ferrez, Cruzador Almirante Barroso, 1888. Acervo Instituto Moreira Salles, coleção Gilberto Ferrez. Registro da imagem e indicação de domínio público.

Fonte do relato: Adolfo Caminha, No Paiz dos Yankees, Rio de Janeiro: D. de Magalhães, 1894, pp. 131–132. Edição digitalizada em domínio público. As citações em destaque seguem a ortografia da edição Proust.

Contexto histórico: Boletim da Divisão Avançada comunicando a Passagem de Humaitá, de 19 de fevereiro de 1868, Arquivo da Marinha, reproduzido na revista Navigator, n. 27.

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Autor: prousteditora

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