Quando uma antologia anuncia um tema, pode surgir a impressão de que apenas textos escritos especialmente para aquele edital poderão participar.
Não é necessariamente assim.
Um conto, um poema ou uma memória já existente pode encontrar numa chamada temática um destino que o autor ainda não havia imaginado. O que importa não é o momento em que o texto foi escrito, mas a relação verdadeira que ele estabelece com o eixo curatorial do livro.
Em Cadernos Proust — pequenas permanências, as submissões permanecem abertas até 30 de agosto de 2026. Este pode ser, portanto, um bom momento para revisitar seus arquivos e perguntar se algum texto já carrega, em sua linguagem ou experiência, algo que continua presente apesar da passagem do tempo.
O tema não precisa ser o ponto de partida
Há textos que nascem depois da leitura de um edital.
O tema desperta uma lembrança, sugere uma personagem, recupera um objeto ou oferece uma pergunta que ainda não havia encontrado forma. Nesse caso, a proposta da antologia participa diretamente do processo de criação.
Outros textos, porém, já existiam antes da chamada.
Talvez tenham sido escritos há meses ou anos. Talvez tenham permanecido guardados porque o autor ainda não havia encontrado o lugar adequado para compartilhá-los. Um novo edital pode permitir que sejam relidos sob outra perspectiva.
Isso não significa modificar sua natureza para fazê-los caber. Significa perceber uma relação que talvez já estivesse presente.
Reconhecer não é adaptar artificialmente
Diante de um tema, pode surgir a tentação de acrescentar referências explícitas para tornar o enquadramento mais evidente.
Um conto passa a mencionar uma fotografia antiga. Um poema recebe a palavra “memória”. Uma personagem começa a recordar a infância apenas para que o texto pareça responder ao edital.
Essas alterações não garantem uma relação verdadeira com a proposta. Muitas vezes, tornam visível apenas o esforço de adaptação.
Em pequenas permanências, o texto não precisa mencionar diretamente memória, tempo ou permanência. O próprio edital esclarece que o diálogo com o tema pode acontecer direta ou indiretamente.
A permanência pode estar naquilo que uma personagem não consegue abandonar, num gesto repetido, numa ausência que continua organizando o presente ou numa imagem que retorna sem ser inteiramente explicada.
O diálogo com o tema deve participar da experiência literária, e não funcionar como uma etiqueta colocada depois que o texto já estava pronto.
O que pode já estar permanecendo no texto?
Uma pequena permanência não precisa ser apenas um objeto antigo ou uma lembrança afetuosa.
Pode ser uma frase ouvida na infância e compreendida somente muitos anos depois. Uma casa que já não existe, mas continua determinando a ideia de lar. Um hábito herdado sem que sua origem seja conhecida. Uma perda que transformou silenciosamente a vida cotidiana.
Também pode ser algo incômodo.
Certas experiências permanecem porque ainda provocam dúvida, culpa, ressentimento ou medo. Há heranças das quais alguém tenta se afastar. Há silêncios familiares que atravessam gerações. Há lugares que continuam presentes justamente porque não é possível retornar a eles.
Ao reler um texto, vale observar não apenas aquilo que ele recorda, mas o que continua agindo depois que o acontecimento principal terminou.
Diferentes gêneros encontram o tema de maneiras diferentes
Em um conto, a permanência pode estar na construção de uma personagem, num conflito, num espaço ou numa ação aparentemente pequena.
Um objeto guardado pode revelar uma relação inteira. Um reencontro pode mostrar o que o tempo transformou e aquilo que permaneceu. Uma personagem pode repetir um gesto sem perceber que ele pertence a alguém que já partiu.
Na poesia, a permanência pode surgir numa imagem, numa repetição, numa pausa ou no retorno de determinada palavra. O poema não precisa explicar o que sobreviveu. Pode permitir que essa presença seja percebida pelo ritmo e pela linguagem.
Em uma memória, a questão não está apenas no acontecimento recuperado, mas na forma como ele continua sendo compreendido no presente. Recordar literariamente não é simplesmente registrar o passado. É observar o que o passado ainda faz conosco.
Cada gênero encontra seu próprio caminho para o tema.
Algumas perguntas para reler um texto já existente
Antes de decidir se um trabalho dialoga com a proposta de pequenas permanências, algumas perguntas podem ajudar:
- Existe algo que continua agindo depois do acontecimento narrado?
- Uma lembrança, um objeto, um lugar ou uma ausência organiza a experiência do texto?
- O passado modifica a maneira como o presente é vivido?
- Há um gesto, uma imagem ou uma frase que retorna?
- O texto transforma uma experiência aparentemente pequena em matéria literária?
- A relação com o tema está na construção da obra ou apenas poderia ser explicada numa apresentação?
- O trabalho possui força literária própria, independentemente do edital?
Essas perguntas não formam uma lista de exigências. São apenas caminhos possíveis para reconhecer como o texto se aproxima do eixo curatorial da antologia.
Os critérios do edital também consideram qualidade literária, originalidade, autenticidade da voz autoral, cuidado com a linguagem, força imagética, narrativa ou reflexiva e capacidade de diálogo com o conjunto do livro.
Reler não significa reescrever inteiramente
Encontrar um texto que dialoga com a antologia não elimina a necessidade de revisão.
Vale conferir o título, o início, o desfecho, a pontuação, a divisão dos parágrafos ou versos e possíveis repetições involuntárias. Também é importante verificar se a versão guardada é realmente a mais recente.
O edital orienta que o trabalho esteja revisado e em conformidade com o Acordo Ortográfico vigente.
Essa revisão, porém, não precisa transformar o texto em outra obra.
Às vezes, bastam pequenos ajustes para retirar ruídos e permitir que sua forma apareça com mais clareza. Em outros casos, a releitura revela que o trabalho ainda não está pronto — ou que pertence a outro projeto.
Decidir não enviar também pode ser uma escolha de cuidado.
Textos inéditos terão preferência
O texto não precisa ter sido escrito especialmente para Cadernos Proust, mas sua eventual publicação anterior deve ser observada com atenção.
O edital estabelece que textos inéditos serão priorizados. Considera-se inédito o trabalho que ainda não tenha sido publicado em livro, revista, antologia, jornal, site, blog ou rede social de acesso público.
O ineditismo, porém, não funciona como condição eliminatória absoluta.
Textos já publicados poderão ser considerados excepcionalmente, desde que o autor informe essa circunstância no momento da submissão e possua todos os direitos necessários para uma nova publicação.
Por isso, a transparência é indispensável. Se o trabalho já circulou publicamente, essa informação deve ser declarada no formulário.
A publicação anterior não impede automaticamente a avaliação, mas os textos inéditos terão preferência na composição do volume.
O prazo termina em 30 de agosto
Cadernos Proust — pequenas permanências receberá contos, poemas e memórias até 30 de agosto de 2026.
Textos enviados depois dessa data não serão considerados para este volume, salvo eventual prorrogação comunicada oficialmente pela Proust Editora.
Cada autor pode submeter até dois textos. Contos e memórias podem ter até quatro páginas. Também são aceitos poemas individuais ou pequenos conjuntos poéticos, respeitado o limite total de quatro páginas por submissão.
A participação é gratuita, e a seleção ou publicação não exige pagamento dos autores. A compra de exemplares impressos será inteiramente opcional.
Os arquivos devem ser enviados preferencialmente em formato .doc ou .docx, com título, identificação do autor e uma breve biografia de até cinco linhas.
O prazo próximo não deve levar ninguém a encaminhar um trabalho ainda incompleto ou sem revisão. Mas também não é necessário começar um texto inteiramente novo se já existe, entre seus arquivos, uma obra capaz de dialogar verdadeiramente com o tema.
Às vezes, um edital provoca o nascimento de um texto.
Em outras, ajuda o autor a reconhecer que uma obra já escrita vinha esperando o lugar certo para permanecer.
As submissões para Cadernos Proust — pequenas permanências encerram-se em 30 de agosto de 2026.
Leia o edital completo de Cadernos Proust — pequenas permanências.
Envie seu texto pelo formulário específico até 30 de agosto.

Às vezes, o texto precisa apenas ser reencontrado.
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