O que pode ser uma pequena permanência?

Nem tudo o que permanece ocupa muito espaço.

Às vezes, uma vida inteira continua presente no modo como alguém prepara o café. Uma casa que já não existe retorna pelo ruído de uma porta. Uma frase ouvida na infância reaparece muitos anos depois, quando finalmente compreendemos o que ela significava.

Pode ser um objeto guardado sem razão aparente. Uma fotografia que sobreviveu às pessoas retratadas. Uma música ligada para sempre a determinado lugar. Um gesto aprendido com alguém que partiu. Uma ausência que, mesmo silenciosa, continua organizando a vida ao seu redor.

São permanências discretas. Não se impõem como os grandes acontecimentos, mas continuam agindo sobre nós.

É em torno delas que se constrói Cadernos Proust — pequenas permanências, antologia literária que reunirá contos, poemas e memórias de diferentes autores em um livro coletivo.

Pequena não significa insignificante

A palavra “pequena” não determina a importância da experiência.

Uma permanência pode parecer mínima em sua forma e, ainda assim, carregar uma história inteira. O valor de um objeto afetivo, por exemplo, raramente está no objeto isolado. Está nas relações que ele concentra, no tempo que atravessou e naquilo que permite recordar.

Uma receita escrita à mão pode guardar uma voz. Uma roupa esquecida no armário pode tornar uma ausência visível. Uma rua pode permanecer ligada a uma decisão tomada muitos anos antes. Um hábito cotidiano pode revelar uma herança familiar que nunca chegou a ser nomeada.

O interesse literário não depende da grandiosidade do acontecimento, mas da atenção lançada sobre ele.

A escrita pode encontrar profundidade justamente naquilo que, visto de fora, pareceria comum demais para se transformar em literatura.

Permanecer não é ficar intacto

Aquilo que permanece também se transforma.

Uma lembrança não atravessa os anos sem mudanças. Ela se mistura ao esquecimento, recebe novos sentidos e passa a ser compreendida de maneira diferente conforme o tempo avança.

O mesmo objeto pode despertar conforto em determinado momento e incômodo em outro. Uma frase pode parecer banal na infância e decisiva na vida adulta. Um lugar revisitado talvez já não corresponda à imagem guardada por quem retorna.

Por isso, escrever sobre uma permanência não significa apenas recuperar o passado. Pode significar observar o que o passado continua fazendo no presente.

Às vezes, o que permanece é uma presença. Em outras, é uma lacuna.

Também não precisa ser algo afetuoso ou nostálgico. Certas marcas permanecem porque ainda provocam dúvida, dor, desconforto ou conflito. Há heranças que acolhem e outras das quais tentamos nos afastar. Há lembranças que desejamos preservar e aquelas que continuamos tentando compreender.

O tema não precisa ser mencionado

Um texto não precisa empregar as palavras “memória”, “tempo” ou “permanência” para dialogar com a proposta da antologia.

Um conto pode acompanhar uma personagem que insiste em repetir um ritual sem explicar sua origem. Um poema pode partir de uma imagem que retorna. Uma memória pode reconstruir uma cena aparentemente pequena e descobrir nela algo que ainda não havia sido compreendido.

O tema pode estar no centro da narrativa, mas também pode permanecer nas margens, agindo silenciosamente sobre a linguagem, as personagens ou a atmosfera.

O importante não é explicar ao leitor o que permaneceu. É fazer com que ele perceba essa presença durante a leitura.

A memória é matéria literária

Em um texto literário, recordar não significa apenas registrar o que aconteceu.

A experiência precisa encontrar uma forma. Isso envolve escolhas de linguagem, ritmo, perspectiva, imagens, silêncios e estrutura. Mesmo quando parte de um acontecimento verdadeiro, o texto não é uma simples reprodução do passado.

A memória seleciona. Aproxima momentos distantes. Esquece detalhes e preserva outros. Às vezes, devolve uma cor, um cheiro ou uma frase, mas deixa todo o restante na sombra.

Essa incompletude não precisa ser corrigida. Ela também pode fazer parte da obra.

Da mesma maneira, uma pequena permanência não precisa nascer de uma experiência autobiográfica. A ficção pode criar personagens, objetos, casas e lembranças capazes de investigar aquilo que continua presente depois que alguma coisa termina.

Na poesia, a permanência pode existir numa imagem, numa repetição, numa pausa ou mesmo naquilo que o poema decide não explicar.

Algumas perguntas podem ajudar

Não existe uma fórmula para reconhecer se um texto dialoga com o tema. Algumas perguntas, porém, podem ajudar durante a leitura e a revisão:

  • O que continua agindo depois que o acontecimento principal termina?
  • Existe uma imagem, um gesto, um objeto ou uma ausência que concentra a experiência do texto?
  • O passado modifica a maneira como o presente é vivido?
  • A permanência aparece por meio da construção literária ou apenas como uma explicação?
  • O texto encontra algo singular numa experiência aparentemente comum?
  • O que pode permanecer no leitor depois da última linha?

Essas perguntas não funcionam como uma lista de exigências. São apenas maneiras possíveis de observar o movimento do texto.

Cada autor poderá interpretar o tema a partir de sua própria linguagem, experiência e imaginação.

Um livro construído por diferentes vestígios

Os textos selecionados para Cadernos Proust — pequenas permanências formarão uma obra coletiva.

Isso significa que cada conto, poema ou memória deverá sustentar sua própria experiência de leitura, mas também passará a conviver com outros textos. Permanências distintas poderão se aproximar: uma casa e uma cicatriz, uma fotografia e uma voz, uma perda e um ritual cotidiano.

A unidade do livro não nascerá de histórias semelhantes. Nascerá das relações que poderão surgir entre diferentes maneiras de reconhecer aquilo que o tempo não levou inteiramente.

As submissões são gratuitas e permanecem abertas até 30 de agosto de 2026.

Cada autor pode enviar até dois textos, com o limite de quatro páginas por trabalho. São aceitos contos, poemas ou pequenos conjuntos poéticos e memórias. Os arquivos devem ser enviados em formato .doc ou .docx.

Antes de participar, leia atentamente todas as orientações sobre o projeto, a formatação e o processo editorial:

Leia o edital completo de Cadernos Proust — pequenas permanências

Envie seu texto pelo formulário de submissão

Algumas coisas desaparecem quando o momento termina.

Outras permanecem, esperando uma forma que lhes devolva presença.

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Autor: prousteditora

Um espaço dedicado à literatura de autoria própria. Aqui, cultivamos o amor pelas letras e damos lugar à expressão que constrói legados.

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