A segunda edição da Proust Magazine reúne 23 textos de 19 autores. São contos, poemas e memórias que partem de experiências muito diferentes, mas acabam se aproximando em torno de algumas perguntas: o que o tempo transforma? O que a memória escolhe guardar? O que permanece depois de uma perda?
Não houve um tema definido para esta edição. Os textos chegaram separadamente, cada um com sua própria voz. Ainda assim, durante a leitura e a curadoria, certos assuntos começaram a retornar.
O tempo é um deles.
Em O valor dos minutos, Alexandre Gorziza recorda os últimos dias de um paciente e a decisão de respeitar seus desejos. Em A fresta do tempo, de Débora Camila Brasil, o cheiro do café devolve uma casa, uma avó e uma parte adormecida da própria vida. Já em Tempo-rais, Lu Santos observa o tempo como uma força que atravessa e modifica o corpo.
O passado, nesses textos, não aparece como algo encerrado. Ele volta por meio de um cheiro, de uma imagem, de uma frase, de um sonho ou de um gesto cotidiano.
A memória também está presente em Cápsulas do tempo e A eternidade circular, de Celuta Machado. No primeiro texto, lembranças surgem como fragmentos que parecem escapar de outras vidas. No segundo, mãe e filha atravessam o tempo como se compartilhassem um mesmo destino.
Em Carta a Marcel Proust, Paulo Nascimento Guerra escreve ao autor da Recherche a partir de uma pergunta que atravessa toda a edição: o que realmente guardamos das pessoas e dos acontecimentos? A carta aproxima literatura, doença, fotografia, leitura e memória sem tratar nenhuma delas como simples registro do passado.
Outro caminho importante é o da perda.
Em Uma existência, Farlley Derze entrega a voz a um boneco deixado junto ao túmulo de uma criança. Em Sesfedrinho, o coelhinho da vida, Geraldo M. Pereira acompanha a relação entre um menino e seu coelho ao longo de dez anos. O conto aborda o luto sem abandonar a descoberta: a morte também pode ser percebida como transformação.
A doença e o envelhecimento surgem em Sinapses, de Isabella Lima, que acompanha o apagamento provocado pelo Alzheimer. O texto observa o que ainda pode permanecer quando a linguagem, os movimentos e a própria percepção começam a desaparecer.
O silêncio também atravessa várias páginas.
Em O que permanece em silêncio, Kleber Luis Antônio Pinheiro encontra, numa casa depois da partida, os vestígios de um afeto que não precisa mais de palavras. A transcendência do silêncio, de Marcolongo Ricardo, aproxima amor, atenção e liberdade. Em Café ao sol da manhã, Maria Rosello percorre livros, lembranças, gramáticas familiares e decisões que marcaram sua trajetória.
Mas a edição não permanece apenas no espaço íntimo.
As regras da miséria, de Antonio Stegues Batista, acompanha dois homens em situação de rua durante a pandemia. O conto começa na distância e na desconfiança, mas termina com um gesto que modifica a vida de um deles.
Em Trânsito, Ivana Mayrink coloca frente a frente um homem protegido dentro de um carro blindado e uma mulher tentando vender água no calor de Belo Horizonte. Entre os dois existe um vidro que funciona como objeto, fronteira e escolha.
A revolução da dignidade, de Youssef Bouguerra, parte da prisão de um vendedor ambulante para mostrar como a fome, o desemprego e a violência institucional podem transformar um gesto individual em acontecimento coletivo.
Há ainda textos que observam o cotidiano por ângulos inesperados.
Em Musca domestica, de Dênnis Carneiro, a vida breve de uma mosca leva um homem a pensar no tempo que desperdiça. Em Uns olhos, Kátia Medeiros imagina alguém que desperta com uma nova maneira de enxergar as pessoas, os objetos e a própria cidade.
Céus estrangeiros, de Mônica Moraes, acompanha uma brasileira em Nova York e a confiança excessiva em sua própria experiência. Fluxo, de Paulo Renato de Faria, parte da água e da paisagem para pensar transformação, entrega e movimento.
A poesia ocupa um espaço importante na edição. Despertar e ser, de J V Santiago, fala de liberdade e começo. Em Da poética, Lu Santos reflete sobre o que acontece quando a poesia atravessa o corpo. Quase um poema de amor guarda a memória de uma relação que permaneceu no limite do encontro.
A segunda edição não propõe uma resposta única. Ela reúne diferentes modos de olhar para o tempo, a perda, a desigualdade, o amor e a memória.
Cada texto pode ser lido separadamente. Mas a leitura da revista inteira revela outra experiência: uma página começa a modificar a seguinte.
A segunda edição da Proust Magazine chega oficialmente ao público em 1º de agosto, em versão digital e impressa.
Talvez o leitor encontre nela uma história muito distante da sua.
Talvez encontre algo que já conhecia, mas ainda não tinha conseguido nomear.
