A última leitura antes do envio

O texto parecia pronto.

Você fechou o arquivo, levantou da cadeira, tomou café, voltou. Leu de novo. Uma frase estava comprida demais. Um parágrafo repetia o anterior. O último verso funcionava melhor sozinho.

O texto ainda não estava pronto.

Quase nunca está na primeira vez em que pensamos que está.

Antes do envio, vale fazer uma última leitura sem pressa. Não para reescrever tudo, nem para desconfiar de cada palavra. Apenas para escutar o texto mais uma vez e perceber onde ele pede ajuste.

Ler em voz alta ajuda.

A boca encontra tropeços que os olhos ignoram. Uma frase pode parecer correta na tela e perder o fôlego quando pronunciada. Uma repetição escondida aparece. Um diálogo soa duro. Um verso termina antes ou depois da hora.

Quando a leitura trava, convém parar.

Às vezes, basta retirar uma palavra. Em outras, a frase precisa ser dividida. Há casos em que o problema não está naquele trecho, mas alguns parágrafos antes, onde uma informação já foi dada e volta disfarçada.

Também é importante observar o começo.

O texto começa onde precisa começar? Ou passa algumas linhas explicando o caminho até chegar à cena, à imagem ou ao conflito?

Muitos textos melhoram quando perdem o primeiro parágrafo. Outros precisam apenas de uma entrada mais direta. Uma porta se abre. Alguém fala. Um objeto aparece. A história começa.

Depois, o final.

A última frase não precisa explicar tudo o que veio antes. Nem repetir a ideia principal em outras palavras. Muitas vezes, o texto já disse o suficiente. O final apenas fecha a porta — ou deixa uma fresta.

Nos poemas, vale olhar cada quebra de verso. Ela tem função ou está apenas decorando a página? Há palavras que podem desaparecer sem prejuízo? O ritmo muda onde deveria mudar?

Nas memórias, convém verificar se os detalhes escolhidos sustentam o texto. Nem tudo precisa ser contado. Uma casa pode caber no cheiro da cozinha. Uma infância, no barulho de um portão. Uma ausência, num objeto que permaneceu no lugar.

Nos contos, observe se cada cena move a narrativa. Se o personagem deseja alguma coisa. Se existe tensão, mesmo quando quase nada acontece.

Depois da revisão, chega a parte menos literária e igualmente necessária: conferir o arquivo.

Veja se o nome está correto, se o documento abre, se o texto respeita as orientações do edital e se o envio contém tudo o que foi solicitado. Um bom texto também pode se perder num arquivo errado.

As submissões para a segunda edição da Proust Magazine ficam abertas até segunda-feira, 20 de julho.

Receberemos contos, poemas e memórias.

Faça a última leitura. Depois, envie.

Avatar de Desconhecido

Autor: prousteditora

Um espaço dedicado à literatura de autoria própria. Aqui, cultivamos o amor pelas letras e damos lugar à expressão que constrói legados.

Deixe um comentário