Alguns livros começam antes mesmo da primeira página.
Começam no silêncio que fazemos ao abri-los. Na estranha expectativa de encontrar, entre palavras alheias, alguma coisa que nos diga respeito.
Há inícios que não apenas apresentam uma história: eles inauguram uma atmosfera. Um tom. Uma promessa.
Às vezes, basta um primeiro parágrafo para compreendermos que entramos em uma casa da qual talvez não saiamos os mesmos. Não é apenas a curiosidade que nos conduz adiante. É algo mais discreto: uma voz que nos chama, um ritmo que se instala, uma frase que parece lembrar algo que ainda não vivemos.
Talvez seja por isso que certos começos nos acompanham por anos. Podemos esquecer personagens secundários, detalhes da trama, nomes de cidades imaginárias. Mas permanecem conosco a luz inicial, a cadência da primeira frase, o modo como um livro nos recebeu.
Há começos que são portas. Outros são armadilhas. Outros ainda são convites feitos em voz baixa.
Neste sábado, a Proust Magazine propõe uma pergunta simples aos seus leitores:
qual início de livro nunca saiu da sua memória?
Não é necessário citar o trecho inteiro. Às vezes, basta lembrar o título, o autor e aquilo que a leitura deixou em nós.

A metamorfose de Kafka foi minha metamorfose de leitor ingênuo para crítico. Aqueles sonhos intranquilos de Gregor Samsa passaram a ser meus também, e nunca mais vi uma barata com aquele olhar de antes de folhear aquele livro pela primeira vez.
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